Entrevista com Expedito Araujo

Para fechar 2015, ano em que mudanças estruturais no Programa Vocacional culminaram na organização das equipes de artistas orientadores por territórios e não mais por linguagens, publicamos a entrevista com Expedito Araujo. Ele foi coordenador geral do Núcleo Vocacional entre 2005 e 2010. Sob sua gestão, novas linguagens passaram a fazer parte do Programa que teve também significativa expansão territorial.

Expedito é formado em Ciências Sociais (UERJ) e Artes Cênicas (UNIRIO), atualmente é gestor do projeto cultural Vivo EnCena. Na entrevista que segue, ele fala sobre seus posicionamentos a respeito do Vocacional em diferentes gestões municipais, sobre as circunstâncias de criação e implementação dos Projetos Dança, Música e Artes Visuais, e sobre a importância do coordenador geral do Programa.

 

Quando e como se aproximou do Vocacional? Quais questões artísticas o moveram nessa aproximação?

Minha aproximação foi no ano de 2003. Já o conhecia desde 2001. O que chamou muito a minha atenção foram as questões políticas e artísticas que o projeto apresentava em sua essência. O idealizador do Programa Vocacional e, à época, Secretário Municipal de Cultura, Celso Frateschi, estava à frente deste projeto e é um profissional que sempre admirei. Percebi algo inovador e de extrema importância para o cenário artístico da cidade de São Paulo, pois envolvia, sobretudo artistas de grupos da cidade com propostas artísticas mais estabelecidas, assim como aqueles que estavam começando os seus movimentos e experimentações artísticas ou processos de emancipação. Minha escolha se deu por um viés político, uma vez que para mim o Teatro, de todas as artes, é o que mais representa esta função. Viés político em sua essência e não partidário.

Em qual contexto político o Sr. assume a coordenação? Quais eram as premissas do projeto, seus pontos fortes e frágeis, tanto do ponto de vista da estrutura, quanto da ação do Vocacional na época?

Fui convidado pelo então coordenador Mario Santana a assumir o projeto em um contexto de implementação. Ele teve o poder decisivo para que este projeto tivesse continuidade de ação na cidade de São Paulo. O mais importante era a ação com suas bases asseguradas para que o Vocacional fosse preservado e executado com coerência reforçando os seus princípios artísticos e pedagógicos em toda a cidade de São Paulo, tanto em equipamentos da Secretaria Municipal de Cultura como nos CEUs, sob administração da Secretaria Municipal de Educação. Vale ressaltar que minha inserção no projeto se deu como artista orientador no ano de 2003 e coordenador de equipe a partir do ano de 2005. Apesar de ter estudado Ciências Sociais e Artes Cênicas na Academia, sei o quanto foi de fundamental importância passar por esses dois lugares até assumir a coordenação geral, pois um dos aspectos primordiais do projeto sempre foi esta construção permanente a partir da prática. Ao receber o convite, com o aval do então diretor do Departamento de Expansão Cultural (DEC), Rubens de Moura, percebia que era necessária uma gestão voltada para a apropriação, visibilidade e ampliação de todas as partes envolvidas no projeto, pois percebia uma fragilidade muito grande nessas questões. E somente assim garantiríamos um lugar institucional dentro da Secretaria. Por outro lado, na administração Serra/Kassab, através da gestão do Secretário Carlos Augusto Calil, tinha apoio total para implementação do Projeto Teatro Vocacional, assim como o desafio instigante, ao meu ver, de criar e executar as outras linguagens artísticas, Dança e Música, na formação do então Núcleo Vocacional. Durante toda a minha gestão, tive total apoio orçamentário tanto da Secretaria Municipal de Cultura quanto da Secretaria Municipal de Educação, garantindo assim maior tempo de contrato para os artistas contratados e qualidade de ação para os artistas vocacionados.

Quais deslocamentos o Vocacional teve no período, tanto na troca de gestão municipal, quanto nas trocas de coordenação geral?

A principal se deu na troca da administração Serra (Kassab) para a administração Kassab. A partir desse momento, o Núcleo Vocacional, já tendo em sua estrutura Teatro, Música, Dança e Aldeias Vocacional, passou a integrar um novo direcionamento no DEC (Departamento de Expansão Cultural). Em 2009, primeiro ano da administração Kassab, o Núcleo Vocacional, assim como a EMIA e o Centro de Memória do Circo, passaram a responder à Divisão de Formação do DEC. Na minha concepção, o Projeto Vocacional – de todas as experiências que tive com projetos como esse, é o maior exemplo de ação prática de projetos que propõem o encontro e as intercessões entre cultura e educação. Por este pensamento, sempre me mostrei não favorável à integração do projeto a esta nova divisão, pois este movimento reduziria o seu impacto orçamentário, assim como o transformaria a médio prazo em um programa de educação através das artes e não um projeto vivo de formação e ação cultural. Sua ação, já estabelecida, assim como sua expansão e melhor remuneração para os artistas contratados eram necessárias e fundamentais para a continuidade do projeto. Em menos de dois meses, o Centro de Memória do Circo, passou a integrar o DPH, também por incompatibilidade com esta nova formação. Nesta Divisão de Formação, o projeto ficou à mercê de interesses internos e políticos sem relevância. Decorrente deste tema, se deu o meu pedido de exoneração em março de 2010, pois não compactuava mais com esta política interna. Vale ressaltar que 2009 havia sido um ano de extrema resistência.

Quais eram as suas atribuições como coordenador geral na época?

As principais atribuições do meu trabalho na Secretaria Municipal de Cultura estavam diretamente relacionadas com a administração do Núcleo Vocacional em seu âmbito global. Este tinha em sua estrutura os projetos Teatro Vocacional, Dança Vocacional, Música Vocacional, Aldeias Vocacional, assim como o conceito para a criação do projeto Artes Visuais Vocacional. Naquele momento, uma estrutura formada por Coordenador de Projeto, Coordenação Pedagógica e Coordenadores de Equipe, sempre com um tema norteador de ação intimamente ligado a questões de conteúdo, era um elemento para integração e apropriação de todos os envolvidos. Mesmo com formações e práticas diferenciadas, precisávamos falar a mesma língua. Nós somos diferentes. As buscas dos artistas vocacionados são diferentes, porém no nosso lugar precisávamos nos reconhecer em um lugar comum para que o projeto tivesse a sua ação alinhada. Neste sentido a função de administrar o Núcleo acabava sendo extremamente expandida para as questões artísticas e pedagógicas. Os coordenadores do projeto tinham autonomia para as suas ações e propostas, mas eu mantinha a função de mediação entre as linguagens, coordenações e acompanhamento direto deste fluxo entre coordenação geral, coordenadores pedagógicos, de equipe e artistas-orientadores. O diálogo institucional, assim como a visibilidade do projeto perante a sociedade também eram objetos de minha atenção. Não obstante, muito se fez, a partir das ações diretas. Festivais, Mostras, Palcos na Virada Cultural, Fóruns! Todos com cobertura e inserção na cidade e nos seus principais meios de comunicação espontânea tais como Revista Bravo, jornais O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Capa no D.O.M.S.P., cobertura ao vivo e gravada de no mínimo 3min em editoriais como SPTV (Rede Globo) edição do horário do almoço de sábado, Placas para cartazes e TVs dos ônibus municipais, etc.

Em um plano de ideias: qual a função da coordenação geral? Qual a função do Vocacional na cidade, o que deve nortear suas ações?

 

A coordenação geral deve possuir um perfil de extremo diálogo com todos os seus departamentos, assim como um olhar muito sensível para que se possa resguardar as bases fundamentais do projeto, assim como um olhar contemporâneo e cíclico para todas as linguagens artísticas, com foco em todas elas, sem juízo de valor. O Vocacional, por ser um projeto de natureza política, que envolve formação, inclusão e acessibilidade, deve dar voz a todos aqueles que dele fazem parte, principalmente os artistas vocacionados, ou seja, o público a quem se volta o projeto, para quem ele acontece, com vieses de ampliação de repertório, consciência de trabalho em grupo, processo de emancipação e ação, transformação social e cidadã.

 

O que motivou o Sr. a implantar demais linguagens para além do teatro? Por quais mudanças artístico-pedagógicas e estruturais o Vocacional precisou passar para a implantação das demais linguagens?

 

O grande processo para a implantação das demais linguagens além do teatro, do qual o primeiro deles foi a dança, se deu através de um estudo de mais de um ano, com a então consultora de dança da Secretaria Municipal de Cultura, Iracity Cardoso. Foi necessário entendermos juntos a essência do projeto, assim como o que o caracterizava, em termos filosóficos e práticos. E a partir disto, nasceu o Dança Vocacional. As outras linguagens se deram por uma necessidade que a própria Secretaria se mostrou interessada, por termos também na cidade uma carência muito grande de um trabalho com continuidade que integrasse pedagogia e ação cultural para outras linguagens. Foi assim que nasceu o Projeto Música Vocacional e o conceito para o Artes Visuais. O projeto Aldeias foi, no entanto, mais segmentado, porém cumpria todas as ações pertinentes ao conceito do projeto na época. Em relação às mudanças artístico-pedagógicas, talvez a única que esteve presente e pude perceber, foi a resistência de parte dos artistas orientadores envolvidos para o diálogo com as outras linguagens.

 

Em sua opinião, o que não é o Vocacional? Quais papéis ele não deve assumir no contexto das políticas culturais?

 

Vocacional não é aula, não é seguir protocolos e muito mesmo metodologias pré-estipuladas. Não é local de experimentação de teses acadêmicas particulares. Não é laboratório. Vocacional também não é emprego. Vocacional é um lugar que o artista precisa ter um comprometimento com uma pauta baseada no lugar de transformação, a partir da troca artística e prática entre artistas, visando sempre um processo de crescimento em grupo, de descoberta de valores como ética, e sobretudo, do desenvolvimento cultural dos artistas vocacionados e do entorno da região a qual este artista pertença. O Vocacional não acontece em uma única direção. O artista-orientador não está lá para ensinar e sim para trocar a partir de uma escuta sobre estas pessoas, estes grupos, estas comunidades. É um projeto que se constrói pela interação e pelos processos colaborativos entre artistas-orientadores e artistas-vocacionados, entre estes artistas e as comunidades. Relembrando a sua essência primordial, o princípio do projeto se faz pelo seu nome, Vocacional é vocação, é dar voz. É um espaço para que cada artista vocacionado possa fazer ouvir a sua voz, suas ideias, sua criatividade, sua expressividade. Este projeto compreende que os artistas vocacionados têm um valor cultural inestimável. E o projeto também tem um valor incalculável para a cidade. As suas ações reverberam em rede, no âmbito individual, coletivo, social. É um projeto de cultura, educação e cidadania, a que todos deveriam ter direito e acesso.

Expedito

 

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