VOCACIONAL E MEMÓRIA – TRABALHO EM PROCESSO

VOCACIONAL E MEMÓRIA – TRABALHO EM PROCESSO

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Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

– Engana-se – replicou o animal – nós vamos à origem dos séculos.

 (…) Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá a confessar que sentia umas tais cócegas ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa quanto a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. (Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 23)

A ação de investigar a memória pode tanto resultar em conforto lírico de um homem consigo mesmo e com seu tempo quanto uma convocação do pensamento para uma imersão vertiginosa. Sabemos que a primeira possibilidade da memória tornou-se recorrente em celebrações: festas de aniversários, de debutantes, de casamento, bodas, etc. É o que se vê, por exemplo, em quadros de programas de auditório onde são relembradas as trajetórias de grandes estrelas, e nos quais a ação da pesquisa serve tão somente para colher depoimentos de queridos conhecidos deste artista que, em alguns casos, disparam uma comoção generalizada. É o que acontece também em premiações de determinadas categorias (dentre elas, a teatral), em notas fúnebres nos jornais e em discursos emocionados com os quais nos presenteamos. Memória praticada como homenagem: passagem em revista dos eventos de uma vida que servem para sublinhar e legitimar seus sentidos, seu sucesso e relevância. Entretanto, há um outro gesto que se contenta em permanecer contemplando o opaco das coisas e funda-se no prazer de perspectivar um passado sem aura. Esse gesto não se pretende mais verdadeiro ou legítimo que o anterior, mas recusa propositadamente o excesso de positividade do mundo e parte para um questionamento de suas verdades implícitas. Tem algo a ver com montar nas costas do hipopótamo do qual nos fala Brás Cubas e, topando permanecer em seus elementos, a água e a lama, movimentar-se por terra nos vestígios do passado, sem pretender ou esperar qualquer redenção final. A história entendida como um quebra-cabeça cruel (MOUAWAAD, p. 118) e a memória praticada como trabalho anônimo de escriba, arqueólogo, investigador à sombra.

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Partindo desses pressupostos, perguntamos a nós mesmos: qual o sentido, hoje, de propor um trabalho sobre a memória do Programa Vocacional? Ora, para respondermos essa questão entre nós, tal ação deveria se relacionar à importância de entendermos o Programa na sua configuração sociopolítica atual a partir das aproximações, distanciamentos e transformações em relação à sua implantação na cidade desde 2001. Assim, o Vocacional Memória[1] consiste em uma ação que quer se experimentar dentro dessa investigação, aqui presente em seus primeiros esboços.

Duas ações tornam-se comuns nessa proposta: poder dialogar mais de perto com a cidade sobre os conceitos e delineamentos do Programa e analisá-lo criticamente, por via de suas transformações. O interesse ou necessidade nossa em empreender este trabalho de memória do Vocacional lida com a dificuldade que ainda temos de falar sobre ele, narrá-lo historicamente (como, por exemplo, para os novos artistas orientadores contratados a cada novo ano que nunca haviam participado de edições anteriores do Programa), assim como com nosso desejo de torná-lo mais próximo das pessoas que ainda não tem conhecimento sobre sua atuação na cidade. Existe também a vontade de manter em vista as constantes reivindicações e crises pelas quais o Programa passou ao longo de sua existência, como as que tomaram força no ano de 2013, por meio da organização de assembleias de artistas-orientadores que buscavam entender qual a proposta cultural da nova gestão da Secretaria Municipal de Cultura.

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Assim, a memória nada teria a ver com uma perspectiva nostálgica que se dedicaria a mirar os “velhos bons tempos” para desmerecer as atuais circunstâncias, algo como agir de forma a “resgatar” os conceitos originais ou se debruçar em direção a algum fundamento inicial e, portanto, mais verdadeiro que o atual.  Tampouco teria a ver com celebrar o presente, festejando um Programa que se encontra morto (nota fúnebre) ou em pleno vigor e coerência. Muito pelo contrário, aqui a memória teria de ser pensada como uma mirada seca para trás, para nossas costas, para um momento em que éramos distintos e, talvez, por meio dessa retrospectiva, indagarmos: “como pudemos nos tornar o que vimos sendo ao longo dos últimos anos?”.

A recusa pela história pensada como resgate da essência perdida, fundada no eterno do mundo, interessa-nos de forma parecida àquela que interessou o professor francês Michel Foucault:

O que faz com que eu não seja filósofo, no sentido clássico do termo – talvez eu não seja filósofo de jeito nenhum –, é o fato de eu não me interessar pelo eterno, não me interesso pelo que não se mexe, pelo que permanece estável sob o furta-cor das aparências; interesso-me pelo acontecimento. (…) Com efeito, trata-se, de certo modo, de retomar pelo viés da filosofia aquilo de que o teatro se ocupa, pois o teatro sempre se ocupa de um acontecimento. (…) Procuro, então, apreender qual é o acontecimento sob cujo signo nascemos e qual o que continua a nos atravessar. (FOUCAULT, 2011, p. 225)

Na esteira do professor Foucault, cabe distinguir este trabalho dedicado à memória de uma proposta estritamente historiográfica. Não somos historiadores e não nos pensamos assim. O que guia nosso movimento provém de um impulso afetivo de nossa ação como artistas dentro do Vocacional. É a partir de nossas perguntas artísticas, de seu diálogo com a cidade e nosso contexto atual que falamos. Logo, a analogia proposta por Foucault entre teatro e pensamento filosófico, também nos é pertinente: teatro pensado como a prática que se ocupa justamente do acontecimento e a memória como inflexão dedicada a flagrar, no passado, nossas mutações, dessemelhanças e debates silenciados. O gesto filosófico análogo ao teatro, que fascinava Michel Foucault, seria poder descrever a maneira como os homens do Ocidente viram as coisas sem nunca perguntarem se eram verdadeiras ou não e como foram construindo, aos poucos e por jogos do olhar, o espetáculo do mundo (FOUCAULT, 2011, p. 223). Parafraseamos Foucault, a partir de sua metáfora da cena da filosofia, e insistimos: gostaríamos de tentar descrever a maneira como se encenou e como seguimos encenando o Programa Vocacional, ou seja, como se o percebeu, qual valor se atribuiu a ele e que papel foi feito com que desempenhasse (FOUCAULT, 2011, p. 223). E, a partir dessa ligeira tomada de distância do nosso presente, esperamos poder tomar fôlego e seguir atuando com algum vigor em nossas práticas cotidianas.

Em 2014, alguns fragmentos dos textos apresentados neste blog serão publicados também na Revista Vocare, publicação oficial da Secretaria Municipal de Cultura. A princípio, a publicação seria organizada no formato de um dossiê. Porém, como ficam evidenciados pelos pressupostos que guiam o conceito de memória aqui proposto, a ideia do dossiê, com sua forma fechada e alguma coerência interna, não nos pareceu a mais apropriada. Propusemos, então, o nome de seção para expor partes da pesquisa feita até o momento. Os significados de seção como parte, trecho, divisão, interessam-nos mais, pois entram em diálogo com o caráter processual da investigação, que jamais se propõe aqui como encerrada. O que nos instiga é pensar que tal espaço possa permanecer aberto para as futuras edições da publicação e que possa seguir prenhe de debates que façam sentido para o pensamento e movimento por vir do Programa.

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Neste blog apresentamos os textos transcritos até o momento. Apresentamos a transcrição de um encontro público realizado no Tendal da Lapa com o ex-secretário municipal de cultura, Celso Frateschi. Responsável pela implantação do projeto Teatro Vocacional em 2001, Frateschi retoma os princípios de sua construção e sublinha algumas de suas singularidades. Seguindo o papo com Celso, segue uma entrevista com a primeira coordenadora do projeto, Maria Tendlau. Em sua análise crítica e questionadora, Tendlau salta da situação do projeto para pensar as possibilidades de relação entre arte e política e questiona sobre a presença ou ausência de sentidos para um trabalho como o do Vocacional. Encerrando a seção, transcrevemos duas conversas realizada com vários grupos e artistas vocacionados que estão ou já passaram pelo Vocacional, justamente em um ano em que a relação orientação de grupos está sendo questionada. Para além de alguns traços comuns como problemas de espaço e relação complicada com seus respectivos equipamentos, os encontros também puderam servir como troca de experiências artísticas e de modos distintos de organização.

É notável que tenhamos nos detido na investigação dos momentos iniciais de formulação do Programa (arco 2001-2004). Tal fato se deve à impossibilidade de dedicarmos mais tempo para este trabalho no curto tempo em que nos envolvemos com a proposta. Reiteramos novamente que é nosso desejo disparar uma ação, e não encerrá-la, e que são bem vindas futuras contribuições, depoimentos e pontos de vista distintos dos que aqui formulados. O trabalho seguirá sendo ampliado nesta plataforma virtual e seguirá sendo desenvolvido.

É importante agradecermos aos parceiros que foram fundamentais na arquitetura do material presente nesta seção. Agradecemos à equipe de coordenadores do Tendal da Lapa, Carla e Marco; à Maria Tendlau, Celso Frateschi e Fabio Villardi, pela gentileza de se disporem publicamente; à equipe do Centro Cultural Jabaquara; e também aos artistas Paulo Fabiano; Suzana Schmidt; Cíntia Onofre; Ipojucan Pereira; Valeria Lauand; Veronica Mello; Hércules Morais; André Oliveira; Vicente Latorre, Judson Cabral; Luis Claudio Cândido; Daniela Schitini; Pedro Felício; Tatiana Guimarães; Amilcar Farina;  aos coletivos e grupos Família Justa Causa, Improvis´Art, Pandora, Humbalada, turma do CEU Casablanca, movimento cultural CRUK,  Cia. Bastarda, Jovens Amadores e Palco para toda obra; e a todos os artistas orientadores, coordenadores e vocacionados do Programa Vocacional.

E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranquilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de ideias novas, de novas ilusões; cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. (…) Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás deles os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, — o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel… (Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 27)

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BIBLIOGRAFIA

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

FOUCAULT, Michel. O saber como crime; A cena da filosofia In: ______. Arte, epistemologia, filosofia e história da medicina. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011, p. 62-69; p. 222-247. (Ditos & Escritos VII)

MOUAWAD, Wajdi. Incêndios. Rio de Janeiro: Cobogó, 2013.

[1] O Vocacional Memória é um trabalho inicialmente desenvolvido por um núcleo de artistas-orientadores do Programa Vocacional que se reuniu no começo da edição de 2014. O núcleo é composto pelos AOs Andrea Tedesco, Livia Piccolo, Luiz Pimentel, Márcio Castro, Maria Emília Faganello, Marina Corazza, Priscila Carbone e Priscila Gontijo.

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