I ENCONTRO COM GRUPOS

CONVERSA ENTRE GRUPOS

 

Numa terça à noite, o interfone de um apartamento alugado na Santa Cecília não parava de tocar. Era gente e mais gente chegando, trazendo bebidas, pães, bolos, salgados e sua presença para o encontro de grupos de artistas vocacionados e ex-vocacionados. A sala pareceu pequena de repente e, com muito entusiasmo, começamos a conversa com os que ali estavam. Ouvimos representantes dos grupos ou coletivos Família Justa Causa (música), Improvis´Art (dança), Pandora, Humbalada, Bastarda, Jovens Amadores e Palco para toda obra (teatro) que com muita gentileza compareceram ao chamado dos artistas orientadores. A transcrição da conversa pode ser lida a seguir e cabe pensar o quanto encontros de trocas entre artistas vocacionados e orientadores de regiões distintas podem evocar a ampliação de nossas questões comuns e divergentes.

 

Capa Nova

capa do cd família justa causa

JHOW, Família Justa Causa: Eu sempre cantei rap. Mas era dentro de outra linguagem, que tinha mais a ver com protesto. Na época eu pensava que gostaria de fazer uma música diferenciada e que todo mundo pudesse curtir. Em 2008 foi quando ficamos sabendo do Vocacional e tivemos nosso primeiro artista orientador, no CEU Lajeado, em Guaianazes. Ficamos com ele um ano, aprendemos algumas coisas e em 2009 tivemos outra artista orientadora e começamos a desenvolver mais nosso canto, nosso comportamento e nossa fala. O rap tem muita gíria e, dependendo do lugar, não faz muito sentido falar tanta. Na televisão, por exemplo, você não fala a gíria “malandragem” e tudo mais. Não é legal. Isso foi bacana, pois a gente começou a fazer várias coisas diferentes em termos de música, comportamento, pesquisa. Começamos a pesquisar MPB, samba e não ficamos só no rap. Porque o rap a gente já tinha nascido escutando. A artista-orientadora propôs novas coisa e acabou enriquecendo nosso trabalho.

A Família Justa Causa é formada por mim, pelo meu cunhado, meu sobrinho… somos uma família mesmo, em seis pessoas (risos). Meu sobrinho tem 10 anos hoje, mas quando entrou com a gente no Vocacional ele tinha 5, nem falava direito.

Passou o ano de 2009, a gente viu que estava num patamar legal e decidiu fazer shows. Aí entramos no Vocacional Apresenta. Era muito legal esse projeto, porque íamos para vários equipamentos aqui em São Paulo. Eu sei que o Vocacional e o Vocacional Apresenta são projetos diferentes, mas foi no Apresenta que vimos a dificuldade do Programa. Nós não tínhamos nenhuma ajuda de custo e colocávamos tudo do próprio bolso. E também tinha o problema da divulgação. Não havia. Não tinha público. Às vezes tinha público no CEU (Centro Educacional Unificado) porque a gente fechava com o pessoal do EJA (Ensino para Jovens e Adultos), mas quando não tinha a gente apresentava para duas pessoas… Lógico que o legal não é, necessariamente, a quantidade de gente vendo, mas sim a evolução do nosso trabalho.

Nosso projeto hoje é mais dançante. Mais festivo. Fala da realidade, mas de modo mais tranquilo. Não metendo o dedo na cara, mas mais educadamente. A gente observou que os grupos de rap estavam muito iguais. Se a gente quisesse outro público a gente teria que fazer alguma coisa diferente. Então a gente tem influência de funk, de R&B, blues, samba, a gente gosta de misturar muito. Sobre nossos temas, a gente fala muito de escola, educação, da realidade, de festa. Eu gosto muito de abordar o tema da educação, pois sou pedagogo também. Mas música vem muito do que você está vivendo. A gente gravou nosso primeiro disco, chamado É aquilo e fizemos um espetáculo com o mesmo nome. No primeiro não temos a participação de ninguém porque queríamos dar foco para o nosso trabalho. No segundo convidamos o Rapin´Hood, o DMN, grupo antigo de rap, Lindomar 3L, que era braço direito do GOG e um pessoal de backing vocal que canta R&B.

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TATIANA, Cia. Humbalada: Eu comecei a fazer Vocacional em 2001 e os outros membros da companhia começaram a fazer em 2003. Em 2005 formamos o grupo. Estávamos na Casa de Cultura de Interlagos, que não existe mais.

BRUNO, Cia. Humbalada: Em 2003, quando a gente começou, havia um momento histórico na cidade de São Paulo muito peculiar: os CEUs estavam surgindo; havia o movimento Arte Contra Barbárie, que era proposto por muitos artistas que queriam discutir a situação do teatro na cidade; havia o surgimento do Programa VAI e do Vocacional; e tinha o Projeto Formação de público. Tudo estava fervendo na cidade. A gente sentia que essa discussão que havia na cidade sobre teatro e, mais especificamente, teatro de grupo, interferia na nossa orientação. A gente tinha orientação, depois via um espetáculo apresentando-se no CEU, que também era uma novidade, via um grupo conhecido ganhando o VAI… estava tudo começando. E tinha a gestão do PT, da Marta Suplicy.

TATIANA: Em 2007, o Programa se deparou com as turmas iniciantes e os grupos que estavam nascendo. E os artistas orientadores não sabiam muito bem como lidar com isso. O eixo do Programa sempre foi a criação de processos emancipatórios coletivos. Acho que o objetivo nunca foi tornar uma turma de iniciantes em um grupo. Mas é uma coisa que é às vezes inevitável, porque se está trabalhando coletivo. Eu penso que, naquele momento, o Programa já não sabia como lidar com os grupos que estavam surgindo no Vocacional, que na época eram muitos. Hoje a gente tem uma discussão de como, muitas vezes, é frágil a saída de um grupo do Vocacional. De como pode ser um problema como um meio e modo de produção podem acabar fazendo com que o grupo não vá pra frente. E os artistas orientadores não sabem como lidar com isso, porque depois do tempo de contrato (7 meses e meio) vão embora… não tem como. Na nossa época de formação, havia essa discussão de grupo na cidade e estávamos na sala de ensaio. E hoje, o que vejo em alguns lugares, geralmente longe do centro, é que as pessoas não se sentem pertencentes ao teatro da cidade. Na nossa época, talvez, isso fosse um pouco diferente. Porque a gente poderia não ser parte dessa cena da cidade, mas sabíamos que existia. Tínhamos como referência histórica algumas companhias de teatro de grupo e discussões de arte na cidade. Digo isso porque penso ser diferente a formação de um grupo pelo Vocacional naquela época e hoje.

A gente se sentia pertencente ao Programa como um todo, porque conhecíamos o coordenador e todas as instâncias do Programa. Hoje o artista vocacionado não conhece mais toda essa gente. Essa profusão de coordenações que existem hoje também acaba distanciando o vocacionado. O Vocacional passa a ser aquele momento das nove ao meio dia numa sala do CEU. E acabou. Não tem como cobrar uma continuidade pra muito além disso porque o Programa não está inteiro na vida do artista vocacionado ali, como pra gente talvez em 2003, 2005.

 

Humbalada

cia humbalada

BRUNO: Quando a gente era artista vocacionado a nossa discussão era artística. A discussão era a arte, o teatro. Às vezes eu sinto que, aos poucos, as coisas foram se pedagogizando. O Programa foi assumindo um lugar quase de mãe…

TATIANA: Assistencialista.

BRUNO: E deixou-se de discutir o teatro na cidade. Estou falando especificamente da linguagem teatro, que é a da nossa formação. Não sei nas outras. Na nossa época a gente discutia Brecht, Artaud… nada era nivelado por baixo. Se a gente não entendesse, o problema era nosso.

RODOLFO, Grupo Pandora de Teatro: Isso acontecia mesmo. As artistas orientadoras que nos acompanhavam faziam isso também, citavam muitas referências estéticas. Um aprofundamento em questões teatrais, na pesquisa do ator, isso era uma coisa forte do Programa.

 

BRUNO: O Vocacional foi decisivo na nossa escolha como profissão, por mais que o Programa não tenha esse objetivo de formar artistas tecnicamente. A gente começou a fazer na época do ensino médio, em que a gente tem que decidir o que quer fazer da vida e pra gente era aquilo que queríamos. Fizemos faculdade depois, de teatro. Como o Humbalada é um grupo que passeia pelas políticas públicas, pelo Vai, pelo Fomento, pelo ProAC, é como se a gente passeasse por aquilo que nos criou, um processo de esteira. Vemos que aquilo teve potência pra nós, então a gente quer também fazer parte disso.

TATIANA: É uma escolha política também. A gente poderia dar aula de teatro em escola de teatro. Não sei se seríamos aceitos, mas o que quero dizer é que poderíamos ter ido para outro trabalho. E hoje nós estamos desenvolvendo uma nova pesquisa. Ganhamos o Fomento 3 vezes. Estamos montando um novo espetáculo na beira da represa Billings.

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BÁRBARA, Grupo Improvis´Art: Nós estamos no CEU Uirapuru, no João XXIII.

 

ALINE, Grupo Improvis´Art: Começamos em 2011, no Vocacional Dança. Alguns de nós faziam Vocacional Teatro também, mas o grupo se formou no final de novembro de 2011 na dança. Fizemos um trabalho que falava sobre política e resolvemos montar o grupo Improvis´Art. Éramos em 5 e estamos, atualmente, em 3. Houve um grande crescimento e amadurecimento, social e artístico, dos integrantes. O que foi aprendido nos encontros do Vocacional Dança, foi primordial para que o grupo tivesse uma base para escrever projetos e ser aprovado no edital do VAI, por exemplo.

BÁRBARA: Eu sou vizinha do Erico, integrante do nosso grupo, eu conhecia ele de vista… a gente só começou a se falar pelo Vocacional. Nós somos todos do mesmo bairro, montamos o grupo lá, mas não nos conhecíamos. Isso foi muito estranho, de repente começar a se falar.

 

ALINE: Em geral, sempre tivemos uma boa relação pessoal com os artistas orientadores. Sentimos algumas dificuldades de transporte e alimentação quando o grupo participava de atividades culturais, proporcionadas pela equipe Vocacional Dança fora do CEU Uirapuru. Um exemplo foi em 2013, quando o grupo foi convidado para participar da Mostra de Processos no CEU Campo Limpo. O espetáculo Qual a Cara do João? exige o uso de um surdo relativamente pesado. Saímos do bairro Jardim João XXIII e fomos até o CEU Campo Limpo utilizando transporte público lotado. Foi uma imensa dificuldade, mas o grupo sempre acreditou que uma das características mais ricas e potentes do Programa era a troca artística entre outros equipamentos.

Em 2013 pegamos o VAI com o Improvis´Art com um trabalho no qual falávamos sobre o bairro João XXIII, um bairro muito frágil, pois não tem biblioteca, Casa de cultura, só tem um CEU. E o CEU, depois da mudança da gestão, ficou um pouco elitizado, na nossa visão. Agora, em 2014, estamos com o VAI de novo, continuamos falando do bairro pela questão dos nordestinos que moram lá, a história dos nordestinos em São Paulo e as questões de xenofobia. O Humbalada falou sobre a questão do espaço e nós estamos sentindo isso na pele.

ALINE: Estamos sem espaço. A gente ensaia em escola, num parque, o bairro todo do João XXIII virou nossa sede.

BÁRBARA: Estamos dependendo de uma escola, que se foca em educação e que não tem envolvimento com a gente. Entramos pedindo um favor. O antigo gestor do CEU foi pra lá e, como tínhamos contato com ele, pedimos ajuda. Ele é do bairro e acredita no grupo. Mas nessa escola é tudo muito parado. Tem a mostra de cultura do Butantã, mas é muito frágil o movimento lá. Tentamos agitar um pouco, mas o CEU impede muitas vezes. Marcamos um evento uma vez e eles ligavam toda a hora remarcando ou perguntando o dia que tinham agendado.

ERICO, Grupo Improvis´Art: Tinham marcado, mas como são muitos os coordenadores de cultura, cada um tinha marcado num dia.

BÁRBARA: Não tinha comunicação, o negócio era triste.

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RODOLFO, Pandora: A gente ensaiava de baixo da escadaria da escola do CEU, porque não tínhamos espaço. Assumimos isso nesse período. E também ficamos sete meses sem artista-orientador, que chegou só no segundo semestre. Ele ajudou a gente no final da montagem da Ilha do Diabo, adaptação nossa do Machado de Assis. Nossa primeira artista-orientadora já havia apresentado Brecht pra gente, o texto O senhor Puntila e seu criado Matti. Uma coisa interessante na relação entre Perus e o Programa Vocacional é que ele sempre atraiu pessoas interessadas em fazer teatro. Existiam 4 turmas, na minha havia 35 artistas vocacionados. Juntando todas devia haver umas 100 pessoas só no bairro de Perus, isso em 2004 e 2005. O grupo se formou em 2004 e a partir daí passamos por vários artistas orientadores. Fomos bem teimosos em seguir fazendo. Nós invadimos um espaço. Daí vieram dois artistas orientadores. Uma das AOs mandou uma bela carta “amistosa” pro Expedito, ex-coordenador geral do Programa, para que ele cobrasse o pessoal do CEU, pois era uma nova gestão que não estava nem aí pra gente. E aí a gente ficou esperando mais duas semanas. Chegou a nova gestora da época dizendo que a gente podia ensaiar na sala multiuso à vontade. Ficamos felizes, lógico, e adoramos mais a nossa artista-orientadora por conta disso (risos). Colocamos ela no pedestal. Mas realmente a gente precisou dessa intervenção do artista-orientador pra que a gente pudesse ter um espaço pro grupo. A gente sempre precisava ensaiar num horário específico porque todo mundo trabalhava. Eu trabalhei durante 7 anos numa metalúrgica, alguns trabalhavam nas empresas do polo industrial de Perus…

RICARDO, Cia. Jovens Amadores: Fiz Vocacional Dança, Música e Teatro. Através do Vocacional Música tentamos formar um grupo, mas não funcionou. A orientação das três linguagens é muito diferente. Na música tem um professor para ensinar a tocar. Já na dança e no teatro os artistas orientadores ficam provocando a gente a se encontrar como artista. Essa é a minha visão. Na música, então, não funcionou, porque o artista orientador queria ensinar a tocar, a fazer arranjo… No Vocacional Dança a gente formou um grupo chamado Grupo Voda. Ele surgiu com a orientação de um artista orientador da Dança e foi um grupo que tomou corpo em 2012. Em 2013 ele foi enfraquecido também pela questão do espaço, pois era muito difícil também conseguirmos espaço para ensaio. Então este grupo, o Voda, cresceu muito, mas depois diminuiu e hoje só restou eu da formação inicial. Já o grupo do teatro surgiu em setembro de 2012. Tinha muita gente no Vocacional, umas 37 pessoas, e nosso artista orientador tinha uma forma de orientar que estimulava muito nossa criação, o material sempre saia de nós. Depois de algumas orientações dele, a gente queria aprofundar mais aquilo. Daí criamos um projeto paralelo: o Vocacional era até as 17:00 e depois disso ficávamos, os que queríamos, para fazer as atividades que o orientador tinha passado. O que a gente aprendia no Vocacional a gente seguia experimentando entre nós. Aprofundando mais. Inicialmente esse movimento se chamava Projeto Paralelo.

No dia 14 de Outubro de 2012 o grupo passou a se chamar Cia. Os Amadores. O primeiro espetáculo foi a releitura de Hermanoteu na terra de Godah,  fazendo uma temporada no Teatro do CEU  Sapopemba. Depois disso alguns integrantes da Cia, deram continuidade  aos estudos no Vocacional e outros no Projeto Espetáculo das Fabricas de Cultura. Dentro dos estudos do Vocacional o grupo passou a trabalhar uma adaptação de Macbeth, de William Shakespeare. Nesse período, alguns integrantes decidiram se retirar da Cia, e sentimos a necessidade de estar abertos a receber novos membros.

No dia 20 de Novembro de 2013 renomeamos definitivamente para Cia Jovens Amadores. Atualmente estamos com dois processos criativos. O primeiro é inspirado no filme O fabuloso destino de Amelie Poulain, orientado pelo artista orientador  no Vocacional. O outro processo é chamado Em Busca de Aventura e temos o objetivo de inscrevê-lo no VAI.

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jovens amadores

ANDRESSA, Cia Bastarda: A gente iniciou no Vocacional em 2008. Éramos 20 pessoas no começo da turma. No final, montamos um espetáculo com a própria turma e ficamos em cartaz no CEU Aricanduva, durante um mês. Como sempre, na mudança de ano, a gente fica uns 4 meses sem artista orientador. Pra gente é ruim. Porque muitas vezes sentimos que estamos ligados também ao trabalho do artista orientador. No outro ano, nossa artista orientador trocou de equipamento e nós tínhamos um espetáculo que, de certa forma, dependia dela. Ficamos um tempo nos virando sozinhos e, nesse tempo, houve aquilo que a gente chama de seleção natural, ou seja, só quem estava afim ficou. Tínhamos que ensaiar fora do espaço oficial do CEU, pois o CEU Aricanduva não abria espaços. Nós nem éramos um grupo, éramos apenas vocacionados que tinham acabado de ficar sem artista orientador. Passamos pelo processo de ensaiar nas nossas casas, na tenda do CEU, afastávamos móveis na casa do Thiago… depois desse período voltou o Vocacional. De 20 já tínhamos virado 6. Com outros novos artistas orientadores chegando. Iniciamos, então, um novo processo de descoberta do que queríamos fazer. O que tínhamos em comum. Tínhamos encontros nas quartas e nos domingos.  E o nosso grupo começou a frequentar os dois dias. Daí precisamos escolher um dos dias para ser possível formar uma turma nova em um dos horários. Começou um certo processo em que passávamos por todos os artistas orientadores. A ideia era conversarmos com vários deles para ganharmos mais bagagem.

THIAGO, Cia Bastarda: Um dos artistas orientadores propôs um aprofundamento teórico, que não é o que o Vocacional propunha na época. E fomos nós que pedimos isso, pois era uma necessidade. Nós queríamos conhecer mais aquilo que nós fazíamos, porque não conhecíamos quase nada. Eu lembro que no primeiro ano, nossa artista orientadora citava nomes esquisitos – Brecht, Stanislavski – e eu anotava e saia correndo pra ver no computador o que era, ia buscar pra ler. Citava o termo “pós-dramático” e a gente ia correndo pesquisar. Isso criou uma curiosidade muito grande e a gente queria experimentar esse aprofundamento teórico. Então, o nosso artista orientador estava disposto a sanar nossa curiosidade. Infelizmente, tivemos o impasse com a gestão do CEU para que escolhêssemos um dos dois dias, ou o teórico ou o de ensaio e optamos pelo de ensaio.

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ANDRESSA: O CEU Aricanduva, nessa época, tinha quatro grupos de teatro. A reunião de divisão do espaço teria de ser feita com os quatro grupos, mas só o nosso apareceu. Acabamos ficando com as aulas. Depois isso virou um problema e foi chamada uma outra reunião em que vieram os coordenadores do Vocacional, estava toda a gestão do CEU, os artistas orientadores e tivemos que expor o porquê daquilo estar acontecendo. Tivemos que ouvir que se a gente quisesse ensaiar mais a gente teria que ensaiar na rua, no camarim, mesmo tendo espaço ali. Nisso, a gente acabou ficando só com o domingo. E nem éramos a Bastarda ainda. Começamos a ter um encontro mais aprofundado com o artista orientador, pois a gente era muito ligado à literatura. Então tínhamos livros a compartilhar. Começamos a estudar os livros e trabalhávamos a partir da construção de imagens. O artista orientador nos propôs que realizássemos um link entre tudo aquilo. E foi aí que nasceu o primeiro espetáculo Pessoas que passam a passos de pés. Tínhamos 17 aninhos… Nós todos éramos adolescentes, isso era bem legal. Ganhar o primeiro VAI foi uma coisa muito gostosa. A assistência deste trabalho era feita pela artista orientadora. Nós nos dirigíamos. Nesses 5 anos, usamos o espaço do CEU Aricanduva.

THIAGO: Depois deste espetáculo, queríamos experimentar algo novo. Ficamos 2 anos experimentando, num processo criativo intenso, sem chegar num lugar específico. Foi bom pela experiência do autoconhecimento, fortalecimento de grupo…

ANDRESSA: Desses 20, do começo, ficaram 3. Nesse processo de 2 anos, decidimos pesquisar personagens. A gente queria saber como trabalhar personagens.

THIAGO: Nosso primeiro espetáculo era fragmentado, composto de textos e de formas de improvisá-los. A gente queria experimentar, depois, uma narrativa. A gente começou a criar em cima disso por meio de livros com os quais cada um de nós se identificava. A partir deles, começamos a levantar alguma coisa.

ANDRESSA: Ficamos 2 anos só testando isso. Legal dizer que a gente recebeu no Aricanduva o Oeste Recebe, que é um processo da Oeste. O Aricanduva recebeu e a gente fez parte dessa montagem. Sempre que a gente fala de espaço, de CEU, parece que a gente tem que ter um jogo de cintura com a gestão. Foi uma conquista nossa ir trazendo a gestão para o trabalho.

THIAGO: Passo a passo a gente foi construindo uma relação com a gestão. Tivemos problemas seríssimos em 2009, porque tinham muitos grupos na época e todos foram se dissolvendo ao longo do caminho. Como nós fomos persistindo, a gestão foi percebendo que a gente não ia desistir, que estávamos afim, então nós fomos conquistando eles, e tendo certa abertura.

Quando ganhamos o VAI foi algo risível. Chegou a ser ridículo, pois havia muitos outros grupos no CEU. Uma das coordenadoras, assim que soube, disse que se faltasse espaço pra gente eles fariam o impossível para achar um pra gente. Era um favoritismo bizarro.

ANDRESSA: Na época em que fomos os favorecidos, tentamos montar o Toda terça tem teatro, para manter uma relação ente os grupos, trocas artísticas no espaço do CEU, trazer a população ao redor. Não rolou, pelas dificuldades com a gestão. Isso acabou sendo esquecido e os grupos foram ou migrando pro CEU Sapopemba ou acabando.

LETÍCIA, Palco pra toda obra: Somos a junção de duas companhias que deram errado. Ou se extinguiram. Um belo dia, a gente chegou para ensaiar e já não tinha mais companhia. Eu e o Jaierlles nunca imaginaríamos que trabalharíamos juntos. Nós estávamos em espaços vizinhos. Ele fazia na Casa Amarela, em Santo Amaro e eu na Belmonte. Só restamos nós. Em 2007 eu fiquei um ano ausente do Vocacional e em 2008 eu voltei. Aí foi quando nos reencontramos. Eles eram um grupo de 18 pessoas e, no fim, ficou só ele da formação original. Por vários motivos os 18 foram se reduzindo até ficarem 4. Quando ficaram 4, começaram uma nova pesquisa chamada Retratos da vida no subsolo. Foi quando eu entrei na parte técnica. Mas eu cheguei nesse momento em que o grupo estava acabando, eles não estavam se entendendo. Tinha um que monopolizava as ideias e os outros não se mexiam para falar “Não, a gente não quer isso. A gente quer outra coisa”. Aí foi onde eu entrei e fui falando “Acho que esse grupo não está legal. Vocês precisam conversar mais sobre as coisas, as relações…”. Foi também quando uma artista orientadora ficou junto dois anos dentro do processo. Aí houve outra ruptura e entrou uma nova artista orientadora. Quando essa artista chegou, ela também pegou o final. A gente estava querendo outra coisa, tinha um dos representantes que ia se mudar pra Campinas… Ela pegou bem o finalzinho da temporada do outro espetáculo pela zona sul e oeste. A gente passava por vários problemas. Nós tínhamos espaço para ensaiar. Ensaiávamos fora do horário comercial da biblioteca, das 19:00 às 22:00. Quando a gente começou uma nova pesquisa, que foi no final de 2011 houve uma reviravolta. Não conseguíamos mais o espaço da biblioteca. Eles começaram a enxotar a gente de lá. Todo santo dia era “Ah, mas vocês não marcaram espaço…”. A gente estava lá há mais de dois, três anos. Tivemos essa dificuldade até que em 2012 fomos parar no CEU Casablanca. Ficamos revezando entre o CEU e o Paço Julio Guerra. Começamos a ser orientados por um novo artista orientador. Outro processo, outro tipo de orientação… um pouco mais devagar. Sempre fizemos trabalhos nossos, sempre desenvolvemos pesquisas e estávamos cansados de fazer pesquisas longas. Chega um momento em que a gente está cansado mesmo. Enfrentamos problemas de público sempre. Uma constante. A última vez a gente disse “Chega”. Fomos apresentar no CEU Pera-Marmelo, chegamos lá atrás do coordenador. “Ah, não está aqui. Fala com fulano, com o segurança, com sicrano…”. 500 pessoas pra você chegar em um que diz que a porta já estava aberta. A gente chegou, entrou e montou. Daí veio alguém dizer que o espetáculo estava marcado para as 17:00. Não. A gente tinha marcado às 20:00. E no dia seguinte teria também e ele dizia que não estava agendado. Esse foi o ápice. A gente percebeu que não queria mais aquilo. Não queríamos mais ficar no Vocacional, nem nesse esquema. A gente não quis mais Vocacional. Esse ano quem inscreveu a gente foi o nosso artista orientador (risos). A gente estava se mantendo, a gente marcava uso do espaço, procurava espaço pra apresentar, fazia a divulgação. Não adiantava fazer parte do Vocacional. E se a gente chegasse pro CEU Casablanca dizendo que éramos do Vocacional, eles torciam o nariz pra gente “Ah, é?”.

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palco pra toda obra

Fizemos uma pesquisa com pessoas em situação de risco num albergue em Santo Amaro.  Havia uma ideologia de um dos integrantes que também era assistente social. Foi meio por este caminho, como olhar para uma pessoa em risco sem o seu preconceito. Foi uma coisa bem fantasiástica. E na verdade, era também muito real. Os espectadores ficavam na dúvida se realmente era um depoimento ou um texto inventado. Nesse novo processo, na transição, passamos por uma nova experiência chamada sinestésica que foi onde tentamos introduzir música, vídeo, dança, tudo. Mas não deu certo por falta de recurso.

Atualmente estamos com espetáculo Antropologia Dos M/EU’s, construído através de entrevistas feitas com algumas pessoas, utilização de materiais de apoio para construção de texto e a estética do espetáculo, além de ampliar nosso conhecimento sobre assuntos que foram surgindo durante nossa pesquisa, como religião, relações interpessoais, tempo psicológico e inconsciente. Nesse espetáculo tentamos de forma simplista valorizar cada palavra dita nas entrevistas, também intercalando com material de apoio e nossos próprios pontos de vista e experiências vividas. Assim buscamos nos aproximar do neutro, tanto no que diz respeito à interpretação/criação do espetáculo e tempo, tanto cronológico quanto psicológico do espetáculo.

Os materiais de apoio utilizados foram Entre quatro paredes, de Jean Paul Sartre, onde temos a questão sobre as relações interpessoais, A alma imoral, de Nilton Bonder, com apontamentos na nossa dramaturgia sobre a relação do homem com Deus e com a religião e A Experiência do Fora, de Tatiana Salem Levy. O livro gira em torno da complexa questão do Fora, com pontos de vistas de três filósofos (Blanchot, Deleuze e Foucault) onde nos apoiamos para pesquisar questões como o tempo e o neutro.

Para vocês, o que é e o que não é (ou jamais poderia ser) o Vocacional?

CIA JOVENS AMADORES: O Vocacional é um programa de iniciação e experimentação artística. E deve ser sempre livre para todos os públicos. E não é aula e nem estudo pedagógico de formação. Ele é experimento artístico.

CIA BASTARDA: É um projeto destinado à iniciação artística na periferia, o qual desperta a sensibilidade poética e o trabalho coletivo em pessoas que talvez não teriam oportunidade de ter contato com as artes de forma tão direta. Através das experiências vivenciadas pelos artistas orientadores e artistas vocacionados, estabelecem-se conexões artísticas e humanas duradouras que são levadas para fora da sala de ensaio, isto é, para a vida cotidiana. O Vocacional nos trouxe uma consciência crítica em relação ao “eu na sociedade” e sobre o fazer teatro e sua importância.  Ao mesmo tempo, sentimos que o Programa Vocacional não é destinado à manutenção de grupos por uma série de conjunturas: a indisponibilidade de espaços que são  destinados às turmas que apresentam números maiores de componentes, a dificuldade dos grupos em desenvolverem seus projetos nos períodos de recesso do Programa pela falta de artista orientador e espaço. Na maioria das vezes o Vocacional se limita a apenas uma das linguagens artísticas, não estabelecendo conexões com as demais. Percebemos também que o Vocacional não está atento às demandas de vocacionados nas diversas regiões de São Paulo, tendo artistas orientadores com lista de espera e outros com apenas um interessado.
PALCO PRA TODA OBRA: Em uma de nossas apresentações neste ano nos deparamos com um discurso que nos fez questionar a real proposta do Vocacional. Ao fim da apresentação um grupo do local quis muito conversar conosco sobre o nosso trabalho e consequentemente falar sobre o processo criativo em que estavam engajados. Foi-nos perguntado sobre a estética do espetáculo, sobre o significado do título Antropologia dos M/EU’s e como e onde nos reuníamos. Entre outras perguntas, durante o bate papo surgiu uma fala que nos incomodou:

-Isso que vocês apresentaram é teatro contemporâneo, prefiro peças tipo Shakespeare, igual no teatro Jardim Paulistano.  Isso não é teatro de periferia!

Ficamos assustados e começamos a indagar sobre que tipo de trabalho estava sendo desenvolvido por aquele grupo, já que este grupo era recém-formado e não pareciam entender muito como funcionavam as orientações e a proposta do Programa Vocacional.

Outra coisa que sentimos falta nesses últimos anos foram os projetos como Toda terça tem teatro e Vocacional Apresenta, com apresentações dos grupos em espaços como o Teatro Paulo Eiró, reuniões em centros culturais, maior numero de equipamentos no projeto, como Casas de Culturas e bibliotecas, além da interação entre grupos que tenham orientações nas proximidades, pois a troca de processos era algo interessante e sabemos que foi dificultado por uma serie questões.

Uma das propostas que acreditamos que o Vocacional tenha é a de trabalhar o olhar de seus artistas vocacionados, buscando quebrar estigmas, tanto como o teatro shakespeariano, contemporâneo ou de periferia (se é que existe), e isso vai além de ocupar um espaço, montar um espetáculo, discutir sobre autores, métodos e exercícios. Acreditamos que o papel do Vocacional, dos artistas orientadores e vocacionados, é esse lugar de desconstruir estigmas sociais, estereótipos e padrões para que possa gerar o desenvolvimento da subjetividade de cada indivíduo, aprendendo e ensinando coisas, dividindo experiências.  Enfim, acreditamos que o Vocacional deve ser um lugar de trabalhar o olhar para si, sobre si, o olhar em relação ao outro, ao local em que ocupo e o mundo.

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