II ENCONTRO ENTRE GRUPOS, ARTISTAS VOCACIONADOS E ARTISTAS ORIENTADORES – CENTRO CULTURAL JABAQUARA

Diferentes grupos de artistas vocacionados e artistas orientadores se encontraram no Centro Cultural Jabaquara no evento Processos Artísticos: Tempos e Espaços, em setembro de 2014.  Conversaram sobre seus processos artísticos, os desafios nas relações com o Programa Vocacional, com os equipamentos e o contexto de onde atuam, apontando críticas e sugestões.

TATI, Movimento cultural CRUK: Eu sou a Tati Alexandre e comecei a fazer Vocacional em 2011. No começo, fazia teatro e nos anos subsequentes fiz também dança e música. Desde que eu conheci o Programa eu me identifiquei bastante. Penso muitas vezes em também tirar o meu DRT para ser artista-orientadora um dia. Como todo mundo no Vocacional, eu já tive muitos problemas com os equipamentos. Participava do Vocacional lá no CEU Feitiço da Vila e hoje estou no CEU Capão Redondo. Mudei inclusive por conta da minha pesquisa. No Feitiço a pesquisa era sempre a mesma, daí mudei para encontrar outro artista-orientador com outra visão que pudesse me auxiliar na pesquisa que eu tenho e no meu desejo de escrever e dirigir peças. Hoje eu faço parte do CRUK, um movimento cultural nascido no CEU Paraisópolis pela orientação do Vocacional. Até hoje é um movimento que, para se deslocar regionalmente, conta com muito apoio do Vocacional para fazer as articulações, saber se posicionar no equipamento. É um Programa que tem uma influência muito grande na minha vida. Antes eu era administradora de empresa. Hoje eu continuo administrando, mas faço teatro. O Vocacional mudou minha vida e vai continuar mudando. E eu queria agradecer essa parceria com o Vocacional e com os artistas, que às vezes, mesmo fora do programa a gente consegue conversar. E isso faz toda a diferença para se fazer uma pesquisa.

MARINA, artista orientadora: Qual a pesquisa do Movimento Cultural CRUK? E como ela se articula com o edital do VAI, no qual vocês acabaram de ser contemplados?

TATI: O CRUK começou em 2009. Inicialmente acontecia só em Paraisópolis, dentro do CEU. Conheci o movimento em 2011, com o meu grupo que era um dos grupos parceiros. A ideia do movimento é criar uma rede de grupos, para que eles possam se ajudar. Desde emprestar equipamentos, até para os deslocamentos, para o trânsito desses grupos pela cidade. O CRUK, então, faz contatos, vai ver o que os grupos estão fazendo, pergunta quais as necessidades de cada um para ver se é possível contribuir de alguma forma. O que eu, como atriz, posso fazer, o que o outro, como músico, pode contribuir para o meu trabalho, etc. Também existe a vontade de ir ver o que os artistas de outras regiões da cidade estão fazendo. Alguns grupos aparecem e somem, outros ficam, não existe problema nisso. A gente está pesquisando e entendendo o que é também. Até onde queremos chegar com o CRUK?

Existem equipamentos, por exemplo, que possuem cinco grupos. Mas os cinco não se conversam. Como estou no mesmo equipamento e não conheço o outro? Grupos que ensaiam no mesmo local, apresentam e não se assistem. A ideia do CRUK é promover encontros e que todos possam se assistir e se comentar.

As nossas questões agora, que estamos com o VAI e circulando o CRUK pela cidade, é o que fazer depois. Estamos com vários contatos de grupos, como promover alguma continuidade de troca? Como seguir ajudando todo mundo? Porque, para além da troca, o CRUK fomenta a divulgação dos grupos.

MARINA: CRUK é uma sigla?

TATI: Não, é o nome de uma personagem de uma peça que eles faziam em Paraisópolis. As pessoas se identificaram, achavam a personagem forte e o nome dela ficou. A página do Facebook do movimento é www.facebook.com/pages/Movimento-Cultural-CRUK . Neste ano estamos realizando ações nas quatro zonas da cidade e no centro. Depois faremos uma última em Paraisópolis mesmo.

 BRUNO, Grupo Teatral Descarados do Tendal: Eu frequento o Tendal da Lapa desde 2011. Sempre tive interesse por teatro, só que eu nunca achava nada que fosse gratuito ou acessível. Só fui descobrir o Tendal da Lapa e o Programa Vocacional buscando no Google, “Teatro de graça”. Isso é um ponto interessante pra pensar: tem muita coisa boa e gratuita na cidade de São Paulo e simplesmente a gente não sabe. Não sei se é falta de divulgação, mas não rola de achar.

Comecei a fazer Vocacional com um ótimo artista orientador. A forma com que ele lidava com os artistas vocacionados foi muito incentivador pra mim, porque, mesmo sendo algo gratuito, de expressão livre, no qual quem faz o curso são os orientados, ele tinha uma seriedade e um profissionalismo que permitiam com que desenvolvêssemos o que desejássemos desenvolver. Isso me deu muita base sobre o que é uma aula de teatro. Foi muito interessante, mas no ano seguinte só eu e mais uma pessoa continuamos fazendo. Outra artista orientadora chegou. A entrada dela, junto com uma galera nova foi muito interessante. Primeiro pela postura da própria artista orientadora. As aulas dela sempre incentivavam a criação, com diversas provocações. Outro fator foi que houve uma união entre todos os novos vocacionados. Ninguém sabia nem se importava em saber o que o outro fazia fora dos encontros e por isso o tratamento sempre foi muito igualitário. O tratamento, entre nós, era muito de igual pra igual, ninguém queria muito saber o que o outro fazia fora dos encontros, ali dentro nos respeitávamos. Esse, acho, foi um dos fatores essenciais pra gente permanecer junto. No final de 2012 nossa AO explicou pra gente que os contratados pelo Programa têm um contrato temporário que não dá certeza nenhuma que eles vão voltar no ano seguinte. Termina no final de novembro e isso significa que se o vocacionado quiser continuar com alguma pesquisa ou grupo constituído, tem que se virar sem orientação técnica. Desde 2012, quando essa artista orientadora entrou, ela sempre nos incentivou a ser independente. A pegar o que ela nos sugere e provoca para discutir entre nós sem a presença dela. Por conta disso, no final de 2012, resolvemos continuar. Nos meses de janeiro pra frente, ou seja, durante todo o processo seletivo dos artistas orientadores, a gente permaneceu junto, começamos um novo processo de pesquisa. Nosso tema passou a ser o preconceito. Tudo isso com a artista orientadora dando alguns palpites, de fora, perguntando se tudo estava rolando bem. Fomos desenvolvendo nosso projeto de forma mais coesa com o passar do tempo. Deixamos de pesquisar o preconceito só do ponto de vista de quem sofre, mas também de quem é preconceituoso. Por que ele age dessa forma? Quais as influências que geram o preconceito? Fomos desenvolvendo o trabalho de forma mais cênica e transcrevendo em personagens alguns apontamentos encontrados em nossa pesquisa. Daí, bem no meio do desenvolvimento cênico da pesquisa, nossa artista orientadora voltou pro Tendal. E junto com ela, veio o Vocacional: galera nova, novos artistas vocacionados. Sempre foi difícil encontrar um argumento com o Tendal para fechar a turma e permitir a orientação só do grupo e continuarmos utilizando o espaço utilizado por nós há mais de um ano. Só tínhamos o sábado para o grupo, que tinha na época quase vinte pessoas, mais os novos vocacionados, que davam mais uns 20 da turma. A artista orientadora nos propôs um bem bolado: fazer metade do encontro todos juntos e depois separar turma e grupo. E foi nesse esquema que seguimos com nosso projeto. Acabou que a gente trabalhou a nossa pesquisa também junto com a turma de vocacionados no decorrer de todo o ano de 2013.

Nossa pesquisa prosseguiu com o estudo dos preconceitos. Durante os experimentos cênicos e os estudos, chegamos à ideia de que, às vezes, os preconceitos estão tão fixados nas cabeças das pessoas que para elas qualquer outro ponto de vista é surreal, não se encaixa na sua linha de raciocínio. Ao ponto de ela encontrar explicações para falar da sua lógica de preconceito que, muitas vezes, não têm lógica nenhuma. Daí ela acaba se perdendo num labirinto de ideias. E foi daí que pensou em montar um labirinto. E vimos que não se trata tão exatamente de pré-conceitos, mas sim de conceitos que cada um se vale para sua visão/leitura de mundo. Um exemplo que gosto de usar é a bíblia. A bíblia é a mesma, mas ela é interpretada de uma forma pelos os católicos, de outra pelos evangélicos e de outra pelos protestantes. Existe um conceito e suas interpretações.

Foi aí que resolvemos montar um labirinto. A princípio com umas madeiras deixadas no Tendal, uns lençóis velhos… (risos) Daí dentro desse labirinto a gente fazia nossas cenas. No começo o nosso labirinto dos conceitos parecia mais uma “favela dos conceitos” (risos).

E no decorrer desse processo, a turma e o grupo se misturavam muito. Acabamos influenciando a turma tanto que esse ano (2014) elas quiseram ser um grupo. E essa é a característica do Vocacional no Tendal, cada ano vai aparecer mais um grupo.

O Vocacional sempre foi muito importante pra gente, tanto pra se manter no espaço do Tendal, quanto na rede de influencias e provocações que nos impulsionam a pensar mais.

No final do ano passado, nossa artista orientadora nos apresentou o VAI. Nenhum de nós sabia disso. Mandamos o projeto e ganhamos o prêmio. Conseguimos colocar um pouco mais de verba na nossa favela dos conceitos. Ainda lembra uma ocupação, não vou mentir (risos). Quem sabe ano que vem a gente bate uma laje já (risos).

Com esse incentivo da prefeitura, a gente conseguiu fomentar as nossas ideias e a construção desse labirinto nos pegou de surpresa. A gente não sabia que um trabalho assim era tão grande e trabalhoso. Tanto que esse ano está sendo um ano de desafios. Porque no nosso grupo todo mundo atua, faz o roteiro, dá uma de carpinteiro, monta e desmonta o labirinto, mas sempre com ajuda da artista orientadora e dos amigos da turma de vocacionados. O Vocacional também nos criou uma rede de amigos, que nos acompanha e nos ajuda.

O nome do nosso grupo é Descarados do Tendal, ou seja, desprovido de cara. Se não tem cara, só tem coração. Então pode ser tudo, não existe uma identidade.

Quanto ao Vocacional, tenho muito a agradecer pelo que ele me proporcionou, apesar de seus problemas. Um deles, evidente, é essa instabilidade do artista orientador. Isso é ruim para ele, e também para os vocacionados. Todo ano essa incerteza é muito ruim. Será que no ano que vem a pessoa que está ajudando a gente a lidar com isso, estará aqui? Pra nós acabou sendo um incentivo, mas nem sempre é assim. Acho que a prefeitura deveria estruturar uma forma melhor de contratação dos artistas e dar a certeza de que todo ano o Programa começa num mês determinado, porque tem anos em que começa em março, outros que começa em maio! E isso fica ruim até para quem não conhece porque vê a divulgação ou sabe que o programa existe, mas que ainda não começou e, muitas vezes, as pessoas desistem.

Nesses três anos em que faço Vocacional percebo que muita gente entra como eu entrei, meio que por acaso; E acabam ficando. Acho que a partir do momento em que isso for tratado de maneira mais certa, no sentido de certeza, ou seja, todo ano vai haver um artista lá, de fevereiro a dezembro, para pensar a continuidade artística do lugar. Porque se não todo ano a gente acaba meio que desorientado (risos).

DIEGO, Grupo Descarados do Tendal: Seria muito importante que o Vocacional acontecesse sem pausas, de janeiro a janeiro, todos os dias (risos). Porque quem está de fora pensa “Vou fazer essa peça em duas semanas!”, mas é muita coisa para dar conta. As pessoas desvalorizam muito o teatro “Teatro? Só tem gente louca! Só tem gente sem noção!” Mas no meu entender, todo mundo tem um lado sem noção, só que é difícil de soltar, a primeira aula de teatro normalmente é uma tortura porque está cada um no seu casulo, introvertido e daí tem que se arriscar a fazer aquele monte de jogos de imitar um ao outro (risos), mas com o correr do tempo vão perdendo a timidez.

O Vocacional foi fundamental para a transformação da minha vida, de mim mesmo. Muda o modo de ver as coisas. Em geral, temos muitos preconceitos e não temos consciência do que estamos fazendo. O Vocacional ensinou que muitos desses preconceitos estão errados, mesmo em relação ao teatro. Por exemplo, não dá para falar de uma coisa sem de fato conhecer como ela é porque estaremos cometendo um erro. Quando a gente entra no teatro a gente percebe que muita coisa é diferente daquilo que se imaginava, inclusive percebemos lados que não conhecíamos em nós mesmo. Teatro é uma coisa que “relaxa” a gente. Tem épocas de correria, claro. Em que improvisamos de marceneiro, compramos furadeira e tudo mais. Nessas épocas, trabalhamos mais como marceneiros do que com o próprio teatro (risos). 90% é marcenaria, 5% o VAI e 5% teatro. Temos que levantar tudo primeiro pra depois levantar o teatro. Hoje em dia se você perguntar de madeira pro pessoal do Descarados, a gente é craque (risos).

 YVES REMONT, ex-artista-vocacionado: Sou músico, toco violão e guitarra. Minha entrada no Vocacional foi 100% caótica. No meio de 2010 eu estava com um amigo meu e ele me disse que havia um espaço no Centro Cultural da Juventude onde a galera se reunia pra tocar. Lá eu conheci a artista orientadora de música e nossa intenção, no Vocacional, era montar uma banda de heavy metal e destruir por aí, pelo bairro (risos). Éramos três, na época, dentro do Vocacional: dois guitarristas e um trompetista e chegamos à conclusão que não daria para montar uma banda de heavy metal nessa configuração e com esse número de pessoas (risos). Nossa artista orientadora deu uma ideia de pegarmos os instrumentos, ir aos horários de orientação, começar a conversar e ver como a gente se arranjaria. Então fomos, eu e o Bruno com o violão, o Leandro com o trompete, paramos na frente dela, e perguntamos: o que a gente faz agora? Ela perguntou: o que vocês querem fazer? Um processo de composição? A gente disse que sim. Ela pediu pra gente tocar alguma coisa e que na próxima orientação levaria material pra gente pesquisar um processo de composição.

Então começamos a fazer barulho (risos).

Hoje eu acho que a intervenção dela foi divina, mas na época foi uma crueldade, porque na semana seguinte ela trouxe uma parte do tratado de harmonia do Schoenberg. Ele foi um cara que sintetizou, num tratado todo, o nosso possível conceito de harmonia. Era uma apostila toda em espanhol, de um cara que a gente nunca tinha estudado, falando de coisas extremamente difíceis. Mas ela colocou a gente no caminho: esse é o cara, é isso que ele faz, é importante que se saiba. E ela começou a nos ensinar harmonia sem mencionar a palavra harmonia para não corrermos o risco de cair num abismo de conceitos teóricos de música.

Começamos a compor uma suíte que chamamos de “A morte do toureador”. Nosso método era: um traz uma coisa, outro pega e faz outra, outro faz outra, mostramos uns pros outros, interferimos e começamos a compor juntos.

E esse processo, de agosto até novembro de 2010, foi um mapa escuro onde a gente tinha que descobrir todos os relevos, todos os cânions, todos os milhões de abismos para poder caminhar nesse mundo completamente novo.

E então conseguimos deixar a suíte tocável. Daí veio o sério problema da instabilidade do Programa com a saída da orientadora. Nós seguimos nos reunindo, mesmo sem a artista-orientadora e demos continuidade no processo, com todo apoio do Centro Cultural da Juventude.

Em 2011, a artista orientadora nos provocou a realizar trocas com um dos artistas orientadores da Biblioteca Belmonte, porque nossa composição tinha temas espanhóis e ele havia passado algum tempo na Espanha. Depois que o conhecemos a gente teve a noção do quão complexo era o instrumento que a gente achava que tocava, o violão. Ele também me deu uma noção muito forte de como você pode ensinar uma pessoa a fazer alguma coisa. Existem duas divisões muito drásticas. A primeira é quando você ensina uma criança, jovem no mundo. A segunda é ensinar um adulto, com seus conceitos pré-formados a aprender uma coisa nova, sem você ferir nenhum dos seus princípios. Este nosso artista-orientador tinha este dom. Ele conseguiu colocar todo o conceito da música espanhola na nossa cabeça, sem apontar um único erro que estivéssemos cometendo. Essa sutileza sempre apontava um caminho para um nível de precisão melhor. Ele sempre nos lembrava de que buscar a perfeição não era um bom caminho de se trilhar, mas buscar a precisão era essencial.

Em 2012 nossa artista-orientadora voltou e, no primeiro dia de orientação, só havia eu no processo. Os outros haviam saído. Ela me mostrou as coisas do Egberto Gismonti, um músico que não existia pra mim até o momento. Depois que eu entrei em contato com o mundo deste musicista singular, deste cientista sonoro, das suas escolhas precisas das relações entre notas musicais, eu descobri, junto com a AO, onde encontro o meu centro para desenvolver uma composição.

Falando assim parece fácil, mas foi um processo muito importante e muito doloroso, pois eu não conseguia pensar e passar para o instrumento. Eu não conseguia lidar com esta tensão. Em 2012 eu aprendi isso. E consegui achar o que eu realmente queria fazer em relação à música. E também aprendi a improvisar e a tocar com outras pessoas.

É importante dizer que foi depois das orientações desses dois artistas que eu resolvi fazer licenciatura em música. Graças aos incentivos deles de sempre pesquisar, nunca se acomodar, por exemplo, se de um caminho surgem novas questões e mais perguntas, significa que se está no caminho certo. Além disso, a questão do respeito. A melhor forma de respeito que se pode ter em relação a outra pessoa é considerar aquilo que ela acha extremamente importante tão importante o quanto as coisa que você acha que são extremamente importantes. E graças a eles, eu tenho uma vontade imensa de ser professor.

Outra coisa bacana que o Vocacional proporciona é que você conhece gente, numa Ação Processo no CEU Cantos do Amanhecer, eu tive a chance de conhecer o Marcio, que era outro artista vocacionado que estava muito próximo de onde eu estava na cidade, mas que nunca tínhamos nos visto. Ele é um sanfoneiro extremamente dedicado e tudo aquilo que eu queria fazer em termos de composição, ele já estava fazendo. Nós estávamos “do lado” mas não nos conhecíamos. Então começamos a pensar algumas composições juntos. E eu, ele e o Bruno tivemos a ideia de criar um trio, o Trimurti. Nós tínhamos como foco partir de composições instrumentais do Ermeto Paschoal para criar e improvisar as nossas próprias composições. Então nos apresentamos no Festival Vocacional, em Ações Processo do Centro Cultural da Juventude e em alguns CEUs. Terminado esse processo, me afastei um pouco do Vocacional e eu comecei a tocar com o Marcio num grupo de forró. E tocando com o Marcio, conheci outro artista orientador que tocava forró com ele, ou seja, eu o conheci fora do vocacional através das conexões que o próprio vocacional proporcionou.

Graças a isso tudo que eu aprendi, levando em consideração todo esse processo de estar ao lado de artistas extremamente gabaritados, a relação de respeito que se tem com o programa, com os artistas orientadores e com os colegas que são os artistas vocacionados. Quando eu estava no meu segundo ano de Vocacional, veio uma galera nova para ser orientada no Vocacional de música e rolou em mim um senso de responsabilidade ao perceber o que eles buscando e como eu poderia partilhar com eles o que eu tinha aprendido ali. Fazer parte da transformação desse ambiente que ainda é caótico, mas que poderia ser mais organizado, para impulsionar a arte já que poucas pessoas tem ciência de que muitas coisas boas acontecem perto de casa. É um programa de política pública que deveria ser projetada num foguete para alcançar o maior número de pessoas, ele deveria ser tomado pela prefeitura com muito mais carinho porque se eles soubessem que cada grupo, cada mente transformada que sai de um processo desse tem ainda mais vontade de ser transformado, de fazer parte de mudanças. Eu era uma pessoa e depois que passei pelo Vocacional, sai uma pessoa completamente diferente pra melhor, capaz de ver claramente qual é a minha posição em relação à arte, pude também achar o meu caminho. E isso eu agradeço imensamente aos orientadores que em casa param para pensar o que podem fazer com os alunos, se eles vão com algo pensado e chegam lá numa situação completamente diferente, eles improvisam para poder chegar num lugar com os vocacionados. Até hoje é assim, eu converso com os orientadores, sinto essa preocupação por parte deles em relação a mim e tudo isso faz parte dessa grande engrenagem que é o Vocacional que gera todo esse efeito em cadeia que é de suma importância na minha vida.

LETÍCIA, artista vocacionada, CEU Casablanca: Meu nome é Letícia, da Cia Palco Pra Toda Obra, agora nós residimos no CEU Casa Blanca, às vezes. E somos orientados pelo mesmo orientador há 2 anos. A Cia surgiu em 2008 mas eu posso contar a história a partir de 2010 quando eu tive contato mais direto. A gente se conhecia da mesma região, que era a Biblioteca Belmonte e o Paço Julio Guerra, mais conhecido como Casa Amarela. Nós conversávamos, mas eram dois grupos diferentes. E depois de muitas transformações e saídas e entradas, nós nos tornamos a Cia Palco Pra Toda Obra no CEU Casa Blanca. A partir de 2010, quando eu entrei, a gente estava no processo do Retratos da Vida no Subsolo, com uma artista orientadora. Eu estava na técnica deles e eles eram em três, o Jorge, a Joyce e o Jaierlles. A partir desse momento foi quando a gente começou a sacar onde está a dificuldade real do grupo, em se formar como grupo. Porque não tinha nenhuma autonomia, que foi uma coisa que partiu de mim para eles, assistindo, vendo ensaio, vendo que não tinha nenhuma autonomia para chegar e falar “ah eu quero fazer isso, quero fazer aquilo”. Tinha apenas o dia e o horário da orientação e nada mais acontecia além daquilo. E também foi um processo de saída, desse processo do Retratos na Vida no Subsolo, para entrar em outro processo que no fim resultou em outra coisa. A partir de 2010, a gente ficou durante 2010 e 2011 rodando os CEUs da cidade, Butantã, Vila Rubi e alguns outros CEUs e algumas outras Casas de Cultura com esse trabalho. Esse trabalho falava basicamente das pessoas de situação de risco, de situação de rua, mas não da forma sócio-política, mas sim de um questionamento interno da pessoa, do olhar da pessoa para si mesmo e de como a sociedade olha aquele indivíduo. Depois desse processo a gente iniciou a orientação com outra orientadora, no outro ano, acho que em 2011, que foi quando a gente começou a investigar a influência da música na vida das pessoas. Mas deste processo da influência da música a gente viu que nós estávamos influenciados por outras coisas também e esse processo foi um processo doloroso que foi indo, indo, se arrastando durante um ano e meio, até depois da orientação desta artista e que não resultou em nenhum processo importante. Neste processo, cada um levou uma música que falava pouco da sua vida. Depois disso a gente foi querendo colocar muita coisa, muita coisa. Era pirotecnia, muita coisa. A gente chegou a ver uma apresentação, que a gente fez um ensaio aberto e a gente percebeu que não tínhamos recursos suficientes para fazer isso. Não era nem financeiro, era mão de obra mesmo. Não tinha quem fizesse isso, era muita gente que tinha a ideia, mas não conseguia colocar na prática. O que a gente conseguiu colocar na prática ficou longe do que a gente queria de verdade. E também ocorreram as saídas de integrantes do grupo. O Jorge que era o integrante central do grupo, dispersou, foi embora para outro lugar. E aí ficamos nós três, eu, Jaierlles e Joyce, que foi quando o grupo começou a entrar em crise de fato. De não saber o que fazer e também as personalidades, as ideias não estavam batendo. Era um querendo fazer uma coisa, outro querendo outra. E a gente começou a entrar numa crise muito grande e foi quando em 2012, chegou o artista orientador do Casa Blanca. Nessa orientação no Casa Blanca, a gente estava perdido, atirando para todo lado, o que vier é lucro, onde acertar acertou. E até um dia que o coordenador regional chegou para assistir uma coisa que a gente ia mostrar mas estava sem a Joyce e a gente não sabia mais o que fazer. A gente pensou: “o que a gente faz?” “Ah, sei lá, vamos fazer qualquer coisa” Aquele foi o momento que a gente falou “Nossa, não tem nada a ver!”. E foi onde esse processo que se chamava Sinestésicos, terminou de morrer. Foi naquele dia. E a partir daí, o artista-orientador começou a trazer algumas propostas que ele trouxe do CPT, alguns exercícios desenvolvidos pelo Antunes Filho e a gente começou a fazer esses exercícios e propondo coisas e propondo outras coisas. Ele propôs pra gente a colheita de depoimentos que foi um trabalho que a gente também fez no Retratos que era colher depoimentos de pessoas diversas e foi daí que a gente começou com o trabalho de monólogos. A gente começou a trabalhar alguns monólogos, cada um fazia um monólogo diferente, às vezes dois monólogos intercalados e ao final de 2012, a gente terminou só com essa ideia do monólogo. E ai a gente viu “poxa, a gente demorou tanto para fazer esse, e eram só monólogos” E era outra frustração. E foi um momento também que a Joyce descobriu que não era o que ela queria, que ela estava atrapalhando a gente e resolveu sair também. Ficamos só eu e o Jaierlles. Daí a gente começou uma pesquisa mais a fundo. Como a gente tinha mais horários em comum, conseguimos mais tempo para poder pensar e também com o auxílio do artista orientador que se empenhou em trabalhar também com a nossa frustração que estava muito grande. A gente foi trabalhando, trabalhando, muito. A gente ficou quase uma semana olhando um para a cara do outro, a gente não aguentava mais. A gente trabalhou muito, muito mesmo, pra poder “poxa, não é isso, não é isso! È isso, isso” E fomos pegando as coisas que foram surgindo. Aí um belo dia quando o coordenador regional foi visitar a gente, o artista-orientador falou “a peça de vocês está pronta”. Eu falei “Não, não está. Como assim?”. Ele: “Tá pronta! Vocês pegam tudo que fizeram hoje e colocam tudo no papel”. A gente fez isso, mas achamos que não tinha nenhum nexo, nada a ver. Mas, aos poucos, fomos fazendo, rascunhando, rascunhando, e fomos vendo o que tínhamos o que havia surgido das improvisações. Mas, continuávamos achando que não tinha nada a ver, que não daria certo. A gente começou a conversar sobre isso e no decorrer das quatro semanas seguintes, repetindo e repetindo o que tínhamos feito naquele ensaio, começou a surgir nosso último trabalho que se chamou Antropologia dos M/Eu´s. Nele, a gente percebeu que conseguiu juntar muitas coisas, tinha coisas das frustrações com o Sinestésico, tinha coisa nossa, tinha muita coisa, muito material que a gente conseguiu reduzir em 40 minutos. 3 anos em 40 minutos. E foi um processo bem bacana de se trabalhar nessa nova formação, de duas pessoas. Tinha também o Gabriel que ajudava a gente na parte técnica. E claro que também todos os artistas vocacionados do CEU Casa Blanca que às vezes assistiam os ensaios nossos, davam algumas ideias, “é assim, tô entendendo isso, aquilo” e foi um processo trabalhoso, muito desgastante, mas também foi evolutivo pra gente. De onde a gente estava para conseguir o amadurecimento que a gente tem agora. Tudo isso decidiu alguns rumos, então essa ideia do processo artístico do Antropologia dos M/Eu´s foi também um processo pessoal.

Nesse ano apresentamos em alguns CEUs e outros lugares, apresentamos algumas esquetes, e a nossa finalização foi agora em agosto quando o Jaierlles foi viajar. E agora, restei eu e a Cia sou eu mesma! (risos) É! Nesse momento, não estou fazendo nada, mas estou pensando algumas coisas. Convidei o Renê e o Elvis para trabalharem comigo e agora é um novo trabalho, um outro resultado… Mas sobre o projeto, o Vocacional em si, eu acho que é um projeto que é muito construtivo, mas que fica devendo em algumas coisas. É muito bom encontrar pessoas, dividir suas ideias, trabalhar os conceitos, os preconceitos. Tantas outras coisas que a gente faz dentro Vocacional que a gente nem percebe, só vai perceber depois. Quem diria que aquele negócio que a gente mostrou, que achávamos que era ruim, iria ter um resultado tão maior. E acho que esse trabalho de se olhar também é algo importante do Vocacional. O tempo de duração do projeto eu acho que o tempo é curto, se formos ver, útil mesmo são 6 meses. São 6 meses parado, 6 meses andando. Mas acho que esses 6 meses que a gente fica sem orientação, é o momento que a gente decide alguns pontos e também o grupo, como grupo, ganha autonomia. Então não adianta falar “tem que estar sempre com o orientador” porque sempre com orientador, você sempre vai ficar dependente do seu orientador. E foi quando a gente descobriu isso, que mesmo sem orientação a gente foi trabalhando. Isso foi refinado depois, claro, mas, sem orientação a gente trabalhou muito mais do que com orientação. E acho que o tempo ideal seria sim 2 meses sem orientação para conseguir trabalhar, se ver, e restantes dos meses trabalhando. Sobre os dias da semana acho que um dia é pouco, mas se você pensar que num dia você trabalha sozinho e no outro dia você trabalha com o seu orientador, dá para ser equilibrado. E enquanto à filosofia do projeto, antes de entrar, de conhecer o projeto, eu fui empurrada, disse “vou lá”. Porque quando eu tinha 15 anos eu era muito tímida, muito brava. Arisca (risos). Eu era muito assim “Falou, tomou. Não estou nem aí”. Isso foi um trabalho construtivo. Na verdade a minha irmã que era do grupo, extinto hoje, que se chamava Ó do Borogodó. Depois eu entrei no lugar dela e depois o grupo sumiu, não sei mais onde está todo mundo. Mas naquele momento fez toda a diferença por que achei interessante, dava para por o meu ponto de vista, dava pra escutar também. Então acho que isso, dentro do projeto do Vocacional, quando eu li o que era o Vocacional, uma das coisas que estava falando era “olhar a sociedade, como você se vê no mundo, etc”. E é um lugar de encontro. Mas muita coisa que tinha anteriormente se perdeu como os encontros entre os grupos, por exemplo. Lá do CEU Casa Blanca, muito tempo depois, a gente descobriu que tinha um outro CEU lá perto, que a gente nem sabia que existia. Acontecia muito de ali dentro da região de Santo Amaro, a gente ter o contato com outros grupos que a gente conhecia nos encontros. E isso se perdeu. Eu lembro de uma vez fazer um encontro com quase todos os grupos da Região Sul 2 no CEU Alvarenga. Foram muito grupos, a gente conseguiu conhecer. Intercalar, trabalhar com outros grupos de outros lugares e foi construtivo. Já nos últimos anos isso se perdeu totalmente. Foram coisas que a gente não viu acontecer. Aconteceu uma vez que a turma do CEU Campo Limpo foi ver o nosso trabalho. Mas não tinha espaço, foi uma muvuca e parecia que foi planejado, mas não foi bem executado Aí foi onde a gente viu “pô, cadê os grupos, aquela troca?”. Até os próprios grupos do CEU Casa Blanca, de outras linguagens, a gente não conhecia. Então nisso a gente perdeu muita coisa. De tudo mesmo, não há uma coisa assim que dê pra dizer “nossa que monstruoso”. Mas essas pequenas atrocidades que vão acontecendo, essas pequenas fragmentações do projeto, levando-se em consideração o contexto que a gente tinha antes é que faz com que a gente deixe de ter um olhar constantemente positivo sobre o projeto. Lá atrás a gente tinha um olhar muito bom, “Vamos refinar que a gente consegue. Vamos tentar de novo. Vamos começar. E agora não”. A gente fica acuado “E no ano que vem a gente vai continuar?” Não sei. “Ah, talvez isso não seja interessante”. “E quem será o orientador não que vem?”. Às vezes o orientador faz um trabalho bom, mas a gente não consegue trabalhar com ele. Às vezes o orientador não faz nenhum trabalho porque a gente não consegue deixá-lo trabalhar. Então, não sei como vai funcionar isso. Em questão de espaço a gente teve, por algum tempo, bastante apoio do espaço que a gente ocupou. A gente ocupou a Casa Amarela, depois a Biblioteca Belmonte, a gente ficou bastante tempo lá mas como trocou de direção, a gente mudou também. Fomos para o CEU Casa Blanca, onde a gente conseguiu apoio até meio do ano passado. E foi quando começou a palhaçada de você ir à sala que estava reservada pra você e toda hora ter alguém usando. E nisso a gente tem brigado muito, para que nossos horários, nosso espaço sejam respeitados, mas não tem surtido muito efeito. Acho que é isso.

CÁTIA, artista-vocacionada no Tendal da Lapa: Meu nome é Cátia, comecei no Vocacional no final de 2012 na área da música. Descobri por um amigo, o Vanderlei. Ele disse “Vai lá no Teatro Cacilda Becker. Você ainda tá tocando violão?”. Eu disse que não, que fazia um tempo que o meu violão estava guardado, que não tocava. Lá tinha um grupo de manhã e um grupo à tarde. Para mim era melhor à tarde. Fiquei então com esse grupo que era um coral, umas 10 pessoas, que estavam mais fazendo músicas de raiz. Não era muito o meu estilo, mas resolvi entrar. Escolhi algumas músicas para cantar com eles e foi bom. Ali também tinha músicas de composição própria com as do Zé Peri. Eu gostei muito da ideia dele nas músicas, na melodia e eu quis tentar também alguma coisa. Ficamos lá nos últimos quatro meses e em dezembro parou tudo. Eu pensei “puxa, acabou tudo”. “Vanderlei, quando é que vai acontecer de novo?” Ele respondeu “Não sei quem é que vai orientar”. Sabe, nessas horas, você perde a referência, não sabe o que vai fazer dali. E o meu amigo ainda disse que talvez mudasse o orientador e que o programa só voltaria lá pra abril. E de fato mudou o orientador, eram propostas diferentes, mas isso acrescenta também na nossa vida. Então daquele coral já comecei a fazer coisas com o Zé, “Quero descobrir como faz, como compõe, como agir para se compor uma música”. E a gente marcou de se encontrar fora do horário de vocacional, ele me deu algumas dicas. Meditando nas músicas dele, eu fiz uma música para a composição dele. Ele gostou. Também chegou o final de novembro e de novo o boato de que não continuaríamos com o mesmo orientador e que inclusive não teria mais música no Cacilda. “E agora? E agora?”. Mas em maio começou a ser no Tendal da Lapa com um outro artista orientador. Isso de ficar um tempo no projeto, você se propõe a buscar mais, a pesquisar, a tirar aquilo de dentro de você e melhorar com aquilo que você já aprendeu, colocando em prática. Acho que foi muito bom para mim o Vocacional. Despertou essa coisa de fazer música, de fazer amizade novamente com o violão, voltar a aprender. É isso! Quero crescer mais, estudar mais, pretendo ir nessa linha de compor, estou gostando disso.

MARINA: Fiquei curiosa, você falou que um grupo estava estudando mais músicas de raiz, é isso?

CÁTIA: Era um coral, eles estavam escolhendo músicas. E nos ensaios eram sempre aquelas músicas, que eram escolhidas pelo grupo. E tinha uma música que era composição do Zé, que ele fez para o grupo. Era “Raiz da Terra”. E essa música é legal para você meditar, pensar. Mas depois acabou aquele grupo.

MARINA: Quando você fala da sua praia?

CÁTIA: Eu gosto de música popular, gosto de falar. A música de raiz eu até gosto, mas não é aquilo que fala comigo. Eu sou eclética, gosto de todas as músicas. Mas tem coisas que você tem mais familiaridade, que sai de você com mais familiaridade. No meu caso é a música popular mesmo.

MARINA: Os vocacionados do CEU Casa Blanca querem falar também dentro desse contexto? Eles participaram de um encontro que teve hoje de manhã, onde falaram do processo deles de criação que vem por 3 anos. Eles vieram para assistir hoje. Vocês têm vontade de falar um pouco sobre esse aspecto que estamos levantando aqui? Ou então responder uma pergunta que para a gente é bem importante nesse encontro. Nós, artistas orientadores, nos debatemos muito: O quê é o Vocacional? O quê não é? Quando você ouve a fala de um artista parece uma coisa, quando ouve de outro, parece outra coisa? A gente queria fazer essas perguntas para vocês?

GABRIEL artista vocacionado, CEU Casablanca: Esse é meu terceiro ano de Vocacional no CEU Casa Blanca. Eu entrei porque minha mãe ouviu falar. Eu na verdade cheguei lá para fazer tênis, mas acabei vendo a plaquinha do Vocacional e me interessei. Dentro do teatro é muito acolhedor. Lá fiz amigos que provavelmente vou levar para a vida toda. Mas eu mesmo não quero fazer teatro. Mas estar lá me fez pensar em outras coisas. Eu mesmo sou mais desenhista. E como as pessoas lá dentro e o processo que o artista orientador faz, isso me estimula muito a procurar mais coisas. O teatro mexe muito com o imaginário. A imagem em si. E como quero seguir a carreira de desenhista, pintor, dentro da arte isso me enriquece muito mais. Dentro do teatro não é só o Teatro. A gente discute muito. Eu já briguei com artista-orientador inúmeras vezes, ainda brigo até hoje. E isso vai me transformando e amadurecendo. É legal quando se está com o outro e começa a ter ideias que não batem. Eu mesmo com o Elvis, brigamos todos os dias porque discutimos sobre N coisas insignificantes, mas que ficam muito mais grandiosas e que talvez se eu não tivesse no teatro, feito Vocacional, talvez eu ainda estaria somente no raso. Não alcançando os lugares que eu estou alcançando hoje. Quantas vezes me senti desafiado lá dentro pelas pessoas, pelo orientador a me superar. A ler mais, procurar mais filmes, assistir peças ir a museus. Porque não ficava só no desafio. Eu começava fazendo muito mais. Era um gosto, um gosto bom. Então dentro do Vocacional, eu não vejo como ficar 6 meses parado, não vejo mais ninguém, eu me sinto estagnado. E quando volta, é energia. Me sinto mais movido. No Vocacional me vejo querendo fazer mais coisas. E nesse espaço de tempo que ficamos sem orientação, parece que não tem nada disso.

ROMARIO artista vocacionado, CEU Casablanca: Eu sou Romário, da mesma turma do Gabriel do Casa Blanca. A maioria já falou como o Vocacional é um excelente Programa, mas uma das coisas que atrapalha é não saber quando vai recomeçar, que orientador que vai assumir. Esse já é meu quinto ano no Vocacional. Comecei na Biblioteca Prestes Maia. Lá, por questões de reforma no ano seguinte, não iria ter mais o Vocacional. Então fomos para o CEU Casa Blanca com uma nova artista orientadora. Ou seja, entre a biblioteca e o CEU tivemos um processo que foi interrompido. Depois, ao final do ano, a orientadora também saiu de lá. De novo, outro processo que a gente interrompeu e, por fim, veio um novo artista orientador com quem estamos no terceiro ano de pesquisa de orientação com ele. E cada um desses processos foi muito importante, mas a continuidade da pesquisa fica comprometida. Começar, com um tempo que já é curto, na prática são 6 meses, apresentar algum resultado da pesquisa no final para que no ano que vem seja, talvez, outro orientador, um outro tipo de condução, outro tipo de pesquisa e tudo aquilo que a gente fez fica para trás. Então, nesses três anos a gente vê como essa continuidade é importante. Porque não é um mesmo trabalho que repetimos todo ano, mas é uma mesma pesquisa sobre um trabalho que começamos, e que não necessariamente tem um fim em 6 meses, porque é pouco tempo. Mesmo se tivéssemos mais tempo, não teria um fim. A importância que essa continuidade tem no trabalho que a gente inicia é porque a gente consegue amadurecer, consegue se formar como pessoa. Acho que essa é umas das coisas mais legais do Vocacional e pude perceber no decorrer dos anos. Eu não estou indo só para fazer teatro, apresentar uma peça e acabou. Você se forma como pessoa também, tem muito mais além disso. Na verdade, ir para o palco, fazer uma cena é um resultado de um processo que envolve muitas coisas que o Vocacional proporciona isso. Esses 6 meses úteis que temos é muito pouco para conseguir se formar como pessoa, para ter uma ideia clara sobre a pesquisa que se iniciou. Não posso chegar ao final de um processo e começa no outro ano, com outro orientador e a pesquisa que você fez ficou ali, acabou. No caso das turmas, se começa um outro tipo de orientação completamente diferente. Nos grupos, às vezes se consegue dar essa continuidade, mas de qualquer forma tem uma condução do artista orientador que vai ser diferente, ele é uma pessoa diferente. Por mais que seja o mesmo trabalho, a pesquisa anda para um lado diferente. Não dá para deixar isso de lado como se fossem módulos: fiz 2010, agora vou fazer 2011, outro módulo, vou aprender outras coisas e deixar tudo o que já fiz de lado. Acho que a continuidade da pesquisa é muito importante. Acho que esse é uma das grandes frustrações como turma. E agora com a orientação do mesmo artista por alguns anos, a gente consegue perceber essa diferença. Mas corremos o risco do ano que vem ser totalmente diferente. O que a gente faz com essa pesquisa? Claro que como formação isso já valeu, é uma das coisas importantes, mas a gente gostaria de continuar. E do que a Letícia falou da questão do encontro com os outros grupos, isso diminuiu bastante mesmo. Em 2010 e 2011 a gente tinha bastantes encontros, lembro que na Biblioteca fizemos um super encontro com vários grupos de vários equipamentos A gente apresentou no mesmo dia que tinha a Mostra do Vocacional. Apresentou ali e depois foi para outro equipamento apresentar, no Paraisópolis inclusive. Então tinha essa integração. Você conhecia o trabalho dos outros grupos e conseguia relacionar muita coisa e repensar o seu próprio trabalho. E isso foi diminuindo. Agora, principalmente esse ano, a gente está visitando outros equipamentos também e estamos constatando a importância disso. A gente foi no CEU Vila do Sol e eles são uma turma que começou esse ano e tanta coisa em comum que a gente já tinha! E pudemos também levar um pouco das nossas ações, nossas reflexões, a gente levou o projeto do Cine Clube pra lá. Ele é fruto do nosso trabalho também. Ter esse contato, levar para lá e ao mesmo tempo receber eles. O ano passado, lá no CEU Casa Blanca também fizemos isso. É uma coisa muito importante pra gente, pro programa em si. A gente sentiu falta disso nesses últimos anos.

JUDSON, artista coordenador de equipe: Vocês são um grupo ou turma?

ROMARIO :Uma turma

JUDSON: A turma é sempre a mesma ou entrou gente nova?

ROMARIO: Entra gente nova! Isso é importante também. Por isso a gente quer se manter como turma porque é importante ter pessoas novas. Todo ano entram pessoas novas, porque veem com outras ideias também, acrescentam muito.

JUDSON: Mas como é essa relação para vocês? Por exemplo, você disse que se muda o artista orientador, a pesquisa acaba mudando. Então me parece que o artista orientador tem grande importância. Mas como é isso quando chegam outras pessoas? Como que isso se arranja?

EVERTON, artista vocacionado, CEU Casablanca: É que não são muitos que entraram. Por exemplo, tem uma turma com 15 pessoas, não entram 10, o que seria bem complicado de encaminhar o processo. No nosso caso entraram 2, 3 pessoas novas por ano. Então essas pessoas entram facilmente no processo, começam a trabalhar, fazem a pesquisa.

TALITA, artista vocacionada, CEU Casablanca: Na verdade, a gente nunca deixa fechado. O que acontece, estamos em 13 pessoas e já estamos lá a um certo tempo. A inscrição é sempre aberta, quem quiser entrar entra. Mas a gente não fecha esse ciclo. Se você quiser entrar, você vai ter que entrar no processo que estamos seguindo. Não vamos recomeçar, mas integrar as pessoas. Não vamos te isolar. Tanto é que a Bruna está há um ano só, mas parece que entrou junto com a gente.

JUDSON: Eu estou tentando pensar também a função do artista orientador e na sua fala me parece que quando essa galera nova chega, a importância está na pesquisa. Mas quando chega um novo artista orientador, a pesquisa deixa de ser importante por que ele passa a ser o proponente de uma nova pesquisa. Ou não?

TALITA: Olha, eu não passei ainda por uma troca de artista orientador, não tenho como te responder isso. Mas pelo que eu escuto, há esse corte mesmo. Por exemplo, estou trabalhando com um artista orientador e ele vai me dar um poema e eu vou absorver o poema de um jeito. Eu vou ler o poema de um jeito. Ele vai ler o poema e eu vou entender de outro jeito. Então, não é por que é o orientador, mas só por SER outra pessoa eu vou interpretar de uma forma. Então acho que tem esse corte mesmo. E acho que a gente se encaixa onde a gente se identifica mais. Eu entrei no Casa Blanca por que vi o cartaz também e eu gosto de teatro. Quando entrei achei meio complexo. Fiquei dois meses lá, com aquele monte de texto, o orientador falando lá e eu só pensando “que p** é essa? O que eu to fazendo aqui”. E acho legal também que o Programa Vocacional é isso. Ele não tem só o intuito de fazer um artista, um ator? Não! Entre nós, tem gente do marketing, eu sou da saúde, tem artista plástico. Então a gente tem vários integrantes porque lá dentro e lá fora é do mesmo jeito. Então é legal isso do programa Vocacional. Claro que eu também quero ser atriz. Mas é legal isso que tem em comum que é integrar a formação de um indivíduo. Como ele se transforma diante do outro e como a gente compartilha ideias, quando tem essas trocas também. E é muito legal, a gente vai aprendendo isso. Por que lá fora é assim: eu tenho a minha opinião, você tem a sua. Como que, eu sei da sua opinião, mas como eu sei da sua história? Tanto é que esses monólogos que a Letícia falou, todo esse processo, essa entrevista que a gente conversa com a outra pessoa. E como que você age nisso, para a pessoa falar para você? “Ah quero que a pessoa fale desse jeito”. Não! A pessoa fala do jeito dela. Como você vai entender aquela vida, aquela trajetória. Por exemplo, ele faz uma personagem que surgiu de uma pesquisa com uma prostituta. Tudo bem, pra gente esteticamente prostituta é aquilo. Mas como é a vida dela? Como é ela? Como é a família dela? Por que ela está ali? Por que ela tem dois filhos? Qual a história dela? É muito pequeno falar assim no superficial. É uma prostituta. Legal! Agora que ele fez a entrevista, ele vai ser a prostituta. Não, ele não vai ser, entendeu? No caso, ele criou uma noiva. O que a noiva tem a ver com a prostituta? Mas a pesquisa dele era a prostituta que foi transformada nessa noiva. Então ele traz essa sutileza da personagem. Ele demorou bastante tempo para criar isso. Era uma visão que ele não tinha. Por que se a gente for ver, eu vou entrevistar um garçom, por exemplo, e o que você vai pensar? Vou fazer uma personagem que é um garçom, tem que carregar bandeja. Não! Você pode fazer um outro personagem, trazendo aquele garçom. Aquela vida, aquela pessoa. Então a gente trabalha muito isso e acho que a gente trabalha mais a profundidade das personagens mesmo.

VICENTE, artista-orientador: É uma visão poética da realidade.

TALITA: Isso! O que o Gabriel falou, a gente tem muita referência, escritores, filósofos. Tem o Cine Clube também que está sendo bastante abrangente também. Eu não conheço filmes que o pessoal apresentou. Foi muito legal também para conhecer. Tivemos agora com o bailarino Zé Maria um processo de Butoh, quando vieram outros grupos e trabalhamos juntos. É legal essa integração. Acho que é isso. Entendi o que você falou (para Judson), mas acho também que tem um corte.

ROMARIO: Só queria esclarecer uma coisa. A minha visão sobre esse corte é que a gente como turma, por exemplo, trabalhou o primeiro ano sobre essa relação entre as pessoas, a relação da gente com o outro e consigo mesmo. Daí de repente entra um outro ano, as mesmas pessoas que estavam naquela pesquisa criando voltam e entram pessoas novas pessoas, de 3 a 4 pessoas. Aí a dificuldade está: se entra artista orientador diferente, não é que ele queria cortar o processo, mas ele pensa “bem é uma turma, então eu vou trabalhar o que a turma quer trabalhar, quais são as propostas?”. Como nós não somos um grupo, claro que a gente não vai impor o que a gente fez, porque existem pessoas novas na turma, mas se o artista orientador é o mesmo, entram pessoas novas e a cada ano a gente mesmo resignifica essa pesquisa justamente por entrarem essas pessoas novas, mas com base no que a gente já fez. Então, o artista orientador e nós começamos o primeiro encontro fazendo uma introdução do que fizemos no processo passado e ai começa essa resignificação para que essas novas pessoas consigam entrar e adicionar coisas. Então não é que é um corte, “somos a mesma turma, é o mesmo artista orientador, ninguém entra, ninguém sai”. Acho que é importante ter essa continuidade justamente pra isso, não é para “não perder o trabalho que foi feito”, mas que a gente consiga levar em consideração para o novo ano, para a nova turma aquilo que a gente já fez para não ter que começar algo novo, de novo, totalmente diferente.

EVERTON: Eu acho que esse ponto da continuidade é importante porque a arte tem um tempo para se estabelecer, ela não acontece em um ano, em seis meses, então essa proposta do Vocacional enquanto proposta é ruim. Um orientador não pode sair, claro que ele pode arrumar outro emprego, acontecer alguma coisa e sair, mas quando isso é uma proposta do programa dele ficar um ano é ruim, não vai dar tempo. E na grande maioria, em 99% dos casos ele não fica. Então todo mundo já sabe que é assim. Em alguns casos específicos o orientador fica, e daí é possível dar uma profundidade maior para o trabalho. Mas quando a proposta é o artista orientador não ficar, não se tem tempo e o Vocacional vira uma apresentação de teatro, onde você vem e faz seis, sete meses e troca e começa um novo processo do zero, com uma turma nova, e você começa do zero de novo e ai você não quer mais continuar, eu já ouvi isso um milhão de vezes “eu não vou mais para o vocacional porque eu já vi tudo isso ai dez vezes porque é um orientador novo, uma turma nova, eu vou começar tudo de novo?” E quando se estabelece uma pesquisa e esse grupo, pode não ter uma nomenclatura de grupo, mas ele tem uma pesquisa, ele tem um conjunto e o orientador é o líder daquilo ali, é o cara que te dá um apoio, que conduz, que dá referências, traz experiência e tudo mais. Então, quando isso é cortado e começa e começa eu acho que o vocacional anda pra traz. Não se consegue andar, você vai e volta, vai e volta. Então a profundidade é muito importante no vocacional, ter um esforço para que o orientador fique.

DANIELA, artista-orientadora: Mas existe algum momento em que você sente que é bom mudar a orientação? Algum momento em que você sente que houve uma saturação, em que foi pesquisado tudo o que se podia nesse caminho e que se quer mudar de orientação. Isso já aconteceu ou a sensação é sempre de se querer continuar com o orientador?

EVERTON: Especificamente com a gente nunca aconteceu, mas óbvio que em vários casos se houvesse essa continuidade, chegaria uma hora que talvez fosse legal mudar, acho que são ciclos. Mas a possibilidade de ter um aprofundamento naquilo que o grupo está fazendo que eu acho que é importante. E é claro que os ciclos começam e fecham, só que numa linguagem teatral seis, sete meses não vão dar conta. É o tempo de iniciação, é o tempo quase que de conhecimento só porque depois que a pesquisa começa a se estabelecer e você consegue dar continuidade num trabalho. Então, por exemplo, nós começamos com algumas referências e nós fomos caminhando nessas referências, evoluindo processos, técnicas mesmo porque o artista-orientador que está com a gente vem do CPT e ele traz muita coisa de lá. Coisas que o diretor Antunes Filho passava de técnicas, de referências, de músicas, de filmes. Só que essas técnicas e referências você não pode pegar uma turma de iniciantes, por exemplo, e jogar tudo porque não vai ter o tempo que precisa pra aquilo se estabelecer da maneira correta. Tem coisa que a gente tá passando agora, no terceiro ano porque a gente já tem um caminho. Uma coisa que se fala, é mais rápido já tem todo um repertório que a gente já traz que a gente consegue associar e caminhar para frente. Isso seria totalmente impossível no primeiro ano, por exemplo. Então a gente consegue dar uma continuidade que pra gente traz um crescimento bem importante. Então eu acho que esse é um ponto que deveria ser bem pensado no Vocacional. É óbvio que tem várias outras coisas, é bem trabalhoso, bem complicado, mas acho que vale a pena um esforço para que isso aconteça.

ELVIS, artista vocacionado, CEU Casablanca: Eu acho que isso o Everton colocou bem. Tem um momento em que será necessária uma troca, mas acho que esse um ano como algo proposto,“olha, vocês tem esse um ano com tal artista-orientador”. Talvez pensar num tempo maior com o mesmo artista, não que seja eternamente com o mesmo até quando ele ou a turma quiserem, mas um tempo que se possa pensar nisso.

DANIELA: Esses tempos são diferentes para cada turma.

ELVIS: Acho que também é por isso que continuamos a ser uma turma e não um grupo. Porque a gente tem toda a liberdade de ir embora, trabalhar com outro orientador, ir para outro CEU. Esse é o objetivo de eu não querer formar um grupo, o dia que eu quiser ir embora eu tenho total liberdade, ninguém vai sentir necessariamente a minha falta. Quando é uma turma é um pouco independente também, assim como é na escola, no grupo já não. Todo mundo depende de todo mundo. Agora já não somos tão independentes assim porque fechamos um caminhar, mas no começo do ano se eu fosse embora, eles conseguiriam fazer um trabalho mesmo sem a minha presença.

JUDSON: Eu diria o contrário. Sem essa sua última fala eu acho que eu iria ficar mais triste do mundo (risos). Não sei qual é a relação. Porque é turma não tem essa dependência? Acho que tem sim. Eu entendo o que você está dizendo, entendo sim, mas só não sei se você não pensa a lógica por outro viés porque numa turma ter mais independência tudo bem, mas agora dizer que não sentirão falta sua… Poxa, sua fala é tão importante que eu ficaria a pessoa mais triste se você não estivesse aqui para contribuir com teu pensamento.

 TALITA: Até eu ficaria, pô. Vou sair e não vão sentir a minha falta (risos) Eu estou a quatro anos lá (risos)

 ELVIS: Estou falando sobre o espetáculo final, claro que vão sentir minha falta porque tem afeto e outras coisas. Mas quando entra uma pessoa nova, não acontece de tudo continuar exatamente igual para não deixar a pessoa entrar. Não, muito pelo contrário. A gente instiga a pessoa a procurar e muita gente fica. No ano passado ficaram três, aí um pessoal saiu, mas isso foi acumulativo. Se alguém entrar hoje no teatro, a pessoa consegue continuar até o final com a gente, mas também tem a questão da pessoa querer correr atrás. E boa parte do pessoal começou não entendendo nada e isso instigou a gente, “nossa o que é isso?” “porque isso acontece?” “que interessante, vou ficar”. E eu acho isso legal, acho produtivo também, mas acredito que a troca do orientador é importante, de vez enquanto ela é necessária sim para algumas pessoas, por isso que eu acho muito importante que o Vocacional aconteça em muitos lugares. Na minha região, quase todo CEU, quase toda biblioteca tem, e eu acho isso muito importante. Se eu quiser experimentar em outro lugar tem e isso é muito rico, mas o que eu acho que tem uma grande defasagem mesmo é em outras linguagens porque no CEU Casablanca não tem Vocacional de música, de desenho também, porque vocacional não é só teatro. Eu sou muito interessado nas outras artes, eu gostaria muito de fazer todas as outras, mas eu não encontro. Eu fiquei sabendo hoje que tem num CEU um pouco mais distante vocacional de música.

VICENTE: Eu comecei como artista orientador no último ano em que a Maria Tedlau era a coordenadora do Vocacional. Na época existia uma regra de que o orientador não poderia ficar no mesmo equipamento por mais de três anos, justamente por estimular um olhar diferente, uma nova perspectiva para o trabalho, dada por alguém que vem de fora. Claro que compromete muito isso de todo ano trocar, por outro lado, se fica muito tempo o mesmo orientador, perde-se a chance de conhecer outras formas de trabalhar.

Eu fiquei aqui pensando sobre qual é o conceito que vocês têm de grupo e de turma porque num grupo embora o compromisso seja maior a gente tem toda a liberdade e daí eu fiquei pensando porque será que na cabeça de vocês a turma é um lugar onde eu posso sair a qualquer momento e porque num grupo não. Parece que o grupo é um lugar que aprisiona, mais forte, sair pode ser mais traumático eventualmente, mas ainda assim é uma possibilidade. Eu trabalhei no CEU Casablanca como artista orientador durante um ano, e olhando de fora eu fico pensando que alguém que entra, entra já num processo, não tem a possibilidade de dar voz a um desejo que talvez não seja a voz dessa turma que já tem um processo, pode ser que essa pessoa não se interesse nenhum pouco sobre o que vocês estão querendo falar para o mundo, talvez eu nem saiba muito bem o que eu queira falar. Com isso, fico pensando nessa questão de vocês permanecerem como turma, mas ao mesmo tempo já terem uma pesquisa, um tema e o quanto isso interfere naquele que entra. Talvez fosse interessante abrir um espaço para quem entra e dialogar desse lugar que vocês já estão com esse espaço de quem entra.

TALITA: Mas é isso que eu falei antes. A gente integra sim, todas as referências que a gente já teve durante o processo são encaminhado para quem chega. Tanto é que a Fernanda e a Bruna que não estão aqui tem as mesmas referências que a gente está estudando a três anos, e elas estão a um ano lá no CEU Casablanca.

VICENTE: Sem dúvida, é uma experiência até interessante, mas por outro lado quem entra, mesmo que vocês partilhem com eles as referências de vocês, isso tudo já é uma referência. E eu me pergunto até que ponto a pessoa que está entrando não quer só conhecer, jogar, brincar, e daí a partir desse jogo venha alguma coisa que ele queira falar pro mundo. Olhando de fora e ouvindo vocês falarem, eu acho que você são um grupo no sentido de terem definido uma pesquisa, uma forma de trabalhar.

TALITA: Cada um tem uma opinião pessoal. Para mim é um grupo e eu já falei isso para eles várias vezes, é um grupo aberto a novas pessoas, integrando novas pessoas, mas é um grupo. Grupo no sentido de união, responsabilidade, comprometimento. Eu não posso ser de uma turma porque se não fica tudo muito superficial também, então, eu sou de uma turminha aqui, outra ali, fica tudo meio mescladinho. Então pra mim é um grupo, a gente está resignificando uma nova peça que chama “Pueris”. A gente apresentou no ano passado e agora estamos resignficando essa peça. Eu penso assim, mas as opiniões são diferentes, cada um sabe da responsabilidade que tem, do que significa estar lá.

ROMARIO: Eu não posso falar de outros processos, mas no nosso caso do nosso trabalho, ele é muito aberto ao individualismo também. Dentro desse trabalho cada um se expressa da forma que acha melhor e acho que é isso que faz as pessoas ficarem. Assim é confortável para a gente, trabalhar da minha maneira sobre essa pesquisa que é comum, não é algo fechado. Às vezes, mesmo quem entra no meio do processo consegue encontrar uma maneira de contribuir com as próprias ideias. Não sei como são outros processos de pesquisa. Nós temos discutido sobre essa questão de ser grupo ou de ser turma, mas confesso que não chegamos a uma conclusão, e talvez, isso nem interesse.

EVERTON: E tem também o time! (Risos) A gente precisa saber qual é o objetivo disso, do que a gente quer com isso. Eu lembro que o artista orientador comentou com a gente que as melhores coisas do CPT ninguém via, aconteciam dentro do CPT, não aconteciam na hora do espetáculo, ele era uma pontinha que saía, mas as grandes descobertas aconteciam mesmo nos exercícios, no dia-a-dia e nós temos uma proposta muito forte em relação a isso: ao nosso crescimento, a nossa humanização. Um exemplo disso é a biblioteca em que nós avaliamos tudo e propusemos uma mudança de prateleiras, reorganizamos tudo. Porque acho que é essa a condição do artista: de mudar os lugares, criar coisas, independente de onde você está. Quando as pessoas chegam, elas sentem muito isso, esse estado que a gente estabelece porque elas percebem que não está tudo fechado, que ela não vai conseguir entrar. Elas sentem o contrário, que tem algo sendo desenvolvido ali e que ela pode fazer parte, contribuir com aquilo o tempo todo. E nós queremos saber o que é que elas pensam daquilo, não fica numa fachada, a gente de fato quer saber o que elas pensam, o que elas querem fazer, como elas podem contribuir. E acho que assim todo mundo ganha, o trabalho continua como grupo, turma, time, o nome não interessa muito.

TALITA: É legal perceber que nosso olhar tende a ficar um pouco aprisionado quando estamos só “Vocacional! Vocacional! Vocacional!”, “Só assisto o que é do Vocacional!” Digo isso porque num encontro um dia, chegou uma moça que nem continuou, mas que foi muito importante. Ela chegou quando nós estávamos ensaiando uma cena, e tudo aquilo que o pessoal do Vocacional falou foi totalmente diferente do olhar dela sobre a cena. Ela tinha um olhar tão puro, enquanto nós já estávamos com um olhar técnico, com um olhar que já perdeu um pouquinho da sutileza porque a gente acaba ficando um pouco obcecado. A cena começa e a gente fica reparando “Nossa, ela entrou em cena e não tem peso da mão, não tem peso no corpo, as pernas dele estão balançando”. E essa moça que tinha acabado de chegar viu o enredo que estava acontecendo, viu sutilezas que a gente não estava prestando atenção. E é muito bacana de perceber isso do olhar do outro, que quando outra pessoa entra, é outro grupo, outro time, outra turma (risos). Porque a pessoa fala um negócio que ninguém tinha falado, foi muito bacana esse dia porque ela trouxe para o grupo o que de fato estava acontecendo e a gente só pensando sobre a cena “Ai, ela tá balançando a cadeira, tá nervosa.” Pô, não! Tem outras coisas acontecendo ali! Então é muito legal não ficar só Vocacional apresenta para Vocacional. Sobre as outras linguagens, eu tenho interesse também em fazer música e dança, e muitas vezes a gente não tem informação sobre onde tem. Eu acho muito legal isso de mesclar as diversas linguagens porque você interage com outros grupos. Eu adorei a ideia do CRUK, fiquei apaixonada por esse projeto.

TATIANA: Desde que entrei, vejo grupos falando disso – Nossa que legal! A gente vai apresentar pela primeira vez! – As pessoas ficam assim. Depois que elas se apresentam, elas pegam o gosto. – Olha que legal, apresentei, quero apresentar de novo. – Também existem algumas pessoas que falam. – Não, eu nunca vou me apresentar. Faço teatro aqui, mas não quero me apresentar. – Mesmo assim, vem a proposta da apresentação e ela entra na programação. A partir daí, querem se apresentar a toda hora, iniciar outra pesquisa. Querem montar outro processo. Alguns dizem. – Obrigado, você me abriu os olhos, agora eu quero fazer isso toda hora. – (risos na sala). Teve um grupo de dança, que já dançava há dez anos e nunca se apresentava. Eu lhes perguntei o porquê não davam aulas. Tinham dez anos juntos: porque não iam para outros espaços? Para outros lados? Não encaravam isso como algo profissional? Hoje eles dão aula de Hip Hop pra crianças. E tudo a partir do CRUK, que na minha visão tem uma questão de ajudar essas pessoas, que, às vezes, estão tão focadas na própria pesquisa, que não a divulgam para outras pessoas. Não compartilham, não têm conhecimento que essa pesquisa pode vir aqui pro Jabaquara, pode ir lá pra Lapa, pode ir pro Jaçanã e voltar pra cá de novo…

(Talvez a gestora do Centro Cultural Jabaquara): Por exemplo, se você estiver no CEU Paraisópolis, e estivermos em contato, eu lhes digo para trazer o projeto de vocês para cá. Nosso espaço é assim, funciona dessa maneira… A troca pode ser a partir disso. Vocês podem vir se apresentar aqui.

MARINA: Gente, são dez para às cinco, queria retornar naquela pergunta, ao menos, o que não é o Vocacional? Pensando política pública, do ponto de vista do Artista Orientador, a gente sente o que é, e o que não é o Vocacional. Para nós, seria muito importante uma fala do que não é o Vocacional, se é que existe uma diferença do Vocacional com outras projetos de política pública que vocês conheçam. Portanto, Bruno, você tem uma fala breve para encerrar esse momento, depois, pelo menos partimos para o que não é o Vocacional.

BRUNO: Acho que dois pontos em que o Vocacional poderia se focar seriam: comunicação e interação. Assim como eles falaram: – Somos uma turma que já está junta há muito tempo, aceitamos a galera nova. Mas daí eles têm que, “eles têm que” não, eles acabam se englobando com o nosso grupo. Nós, os Descarados, começamos o Vocacional e no ano seguinte veio uma turma nova. Dividindo o mesmo espaço com a gente, outras ideias, outras vontades. O que a artista orientadora, sugeriu, e hoje é o que está sendo o nosso norte. Pensamos em fazer uma inserção dessa pesquisa, desse projeto, “o que vocês estão trabalhando já há um tempo, seja como turma, grupo, qualquer nome,” e mostrar isso pra galera que está vindo, e pedir opinião deles… Mas, se essa turma, esse grupo, que está com a pesquisa há mais tempo, têm interesse em se aprofundar, mas tem um pessoal novo que tem a necessidade de conhecer o Vocacional, é necessário, num primeiro momento, estarmos separados. Quem está querendo desenvolver aquele processo irá desenvolvê-lo, e a galera nova vai se conhecer, vai conhecer mais um pouco Vocacional, vai comentar o que achou do outro processo. O que seria um encontro impactante, aos poucos vai se misturando. Nós que começamos com a pesquisa sobre os preconceitos, foi algo que se deu sem a orientadora. Estávamos com outro processo/pesquisa no ano anterior (2012), sobre o qual ninguém quis continuar. Tivemos que começar do zero. Então do começo ao fim foi tudo autônomo. Quando a artista-orientadora veio com a galera nova, para ela também era quase que uma novidade. Ela não tinha começado com a gente esse processo de criação. Mesmo assim, ela soube inserir o ponto de vista dela, pois, por mais que nos conhecesse há um ano, ela entrou como uma  artista-orientadora nova, não tinha visto nosso caminho até aquele ponto. Portanto, a proposta: “mostrem um pouco o que vocês estão querendo fazer, mostrem alguns jogos dos seus processos de criação que vocês fizeram até aqui, e na segunda metade do encontro, eu vou com a turma nova para um outro espaço, ou dividimos o galpão. Depois, juntamos de novo e mostramos o que trabalhamos em separado.” Então nisso há comunicação entre todos e a interação, onde um vai interferir no trabalho do outro de uma forma branda sem que ninguém também saia chocado do processo. Porque essa pessoa vai ter a oportunidade de expor aquilo que ela quer. E depois falar aquilo que ela acha para as pessoas de fora, que ela não queria participar, a priori. Se a gente vai soltando as informações em doses homeopáticas, a pessoa (nova no vocacional) vai trazer algo dela e linkar com aquilo que ela viu, aos poucos. No processo de troca do artista – orientador em uma turma que já está junta há algum tempo, ele tem que procurar uma forma de unir os novos que chegam junto com ele, com o que a galera, que já está há um tempo, quer continuar. Misturar de uma forma mais branda, sem ser imposto. Por exemplo, em um processo de criação, existem alguns jogos que depois de um tempo em que se está junto, que se está lá… tornam-se maçantes, cansativos. Alguns jogos clássicos de se apontar para outra pessoa e falar o nome, que são de inserção mesmo ao Vocacional, que para uma galera que já está há um tempo a mais, não repercute tanto. Mas é necessário pra galera nova, pra ela poder se inteirar. Então, deve haver uma forma de entrar num consenso, acho que é isso.

Artista-orientador: Sobre essa pergunta, “o que não é o vocacional?”, acho que esse momento reflete o que pra mim não é o Vocacional. Eu vejo só eu como orientador de Música, num projeto que tem Artes Visuais, Dança e Teatro, isso pra mim já não é o Vocacional. Também me traz um momento de recordação, de nostalgia: o Vocacional em Rede de um tempo atrás em que estavam presentes todas as linguagens de uma determinada região. Agradeço o convite do Vocacional Memória, vejo nisso aqui a tentativa válida da linguagem do Teatro. Sempre pontuo na reunião de Música que nós não nos estamos pensando como Projeto. Então essa pergunta me vem no sentido de falar: “isso não é o vocacional”. Somente um artista-orientador de música aqui presente! Sinto falta das outras linguagens aqui, sinto falta do meu coordenador de Música, fora outras questões de continuidade ou não… Esse encontro é muito significativo, mas respondendo sua pergunta para mim isso aqui não é o Vocacional. Como eu entrei no Vocacional há quatro anos, quando existia o Vocacional em Rede, eu dialogava direto com as outras equipes, eu orientei um grupo de teatro. Tinha o Vocacional Apresenta, com a Roberta, muito articulada. Hoje eu me vejo como músico, sozinho, isolado no Tendal da Lapa. Quando me surge um convite como esse do Teatro, fico agradecido, penso: “será que vai ter alguém de música?” Hoje estava no fórum pela manhã e vi muitos artistas-orientadores da música lá e eu perguntei se eles viriam agora à tarde, disseram que não, nem sabiam o que teria à tarde. Para mim esse momento é de reflexão, de tentar entender a continuidade do projeto. Eu sinto, pelo menos na Música, que não pensamos o Projeto.

ANA ÍTALA, artista vocacionada, CEU Casablanca: Como o Mário falou, sinto falta de encontros de grupos pra haver essa troca de processos. Eu comecei no Vocacional em 2005, e você falando, me parece que tinha mais essa questão de eu sair da “Conchinchina” para ir pra outro lugar e ter essa troca. Cada um está em seu mundo isolado, os grupos estão em seus mundos isolados. De vez em quando, talvez, por ser proposta do cronograma do Vocacional, aconteça um encontro ou outro. Antigamente tinha muito mais esses encontros de muitos grupos de toda uma região. Faço uma ligação com o que ele falou, parece que hoje isso se perdeu um pouco. Por estar há bastante tempo no Vocacional, vejo que é um Programa que está sobrevivendo, que as pessoas acreditam no Vocacional, no sonho do Vocacional. Por isso vem sobrevivendo a mudanças de presidente, de prefeito, de qualquer partido.

ROMARIO: E até pegando isso que você falou mesmo que o Vocacional não é, inclusive nós falamos Vocacional, não Vocacional Teatro. Acho que o Vocacional não é isso de ter Vocacional Teatro isolado, Vocacional Música, que tem pouco, e Vocacional Dança… Porque no teatro a gente usa muita coisa de música. Nós conhecemos a orientadora de música aqui, umas das poucas que tínhamos conhecido. O Vocacional não é só ficar isolado, porque no teatro a gente usa tanta coisa de música, de dança. Tivemos um encontro de Butoh, semana passada. Existe Vocacional Dança lá no CEU CASABLANCA, só que nunca tivemos um encontro do Teatro com a Dança, só individualmente indo assistir aos amigos.  Então não é isso, o Vocacional é tudo. Pra gente, Teatro, e tenho que certeza que pra Música e pra Dança, interessam todas as relações entre essas áreas. Isso é o Vocacional. Não o exemplo que foi dado, esse o Vocacional de Teatro com um orientador de Música. Não é isso o Programa, não conheço há tanto tempo assim, mas pelo pouco que conheço, pelo o que trabalhamos dentro do teatro, deveríamos ter mais esse encontro entre outros Vocacionais. Não outros, é o mesmo Vocacional, mas entre as outras linguagens.

IPOJUCAN, coordenador de teatro: Tem o Teatro Vocacional, Música Vocacional, Dança Vocacional, Artes Visuais e Artes Integradas. Artes Integradas seria uma proposta de ter artistas-orientadores das quatros linguagens trabalhando juntos. Não dividindo o tempo entre as linguagens, mas tentar fazer uma única, a fusão de todas.

BRUNO: Por que será que não pode haver uma comunicação do Vocacional Dança, Teatro etc, durante os seus processos?

IPOJUCAN: Pode haver sim.

TATIANA: E Ipojucan, as Artes Integradas entraram em que ano?

IPOJUCAN: A coisa, ao longo desses anos todos, foi se desenvolvendo. Começou com o Núcleo de Direção, ou melhor, começou antes. Já existia um núcleo de estudos, e nele surgiu um desejo, que independente da linguagem, as pessoas se reunissem para estudar. Era o Núcleo de Encenação. Isso foi se desenvolvendo e há alguns anos foi criado o Interlinguagem. Esse ano virou Artes Integradas. É uma tentativa de se pensar esse lugar que tem na Arte hoje em dia, em que já não se define como Teatro, Dança etc. – O que é aquilo? – O Artes Integradas está nesse lugar.

BRUNO: O único problema que eu vejo, é que dessa forma se acaba dividindo em mais um grupo (risos).

TATIANA: Acho que ficou assim. Lá no Paraisópolis, tem as Artes Integradas agora. Em 2012, conseguimos juntar a Música, a Dança, o Teatro, e fazíamos todas as aulas como um grupo. Tanto é que a partir dessas outras linguagens entraram outras pessoas para o grupo. Lá no Feitiço da Vila, a única vez que aconteceu foi naquele ano. Como tinha o Vocacional Apresenta, toda terça tinha uma coisa diferente. Uma terça era Artes Visuais, noutra terça era Dança. A gente que era vocacionada estava lá toda terça e acabamos criando um olhar para todas as artes. Em 2012, conseguimos, montamos Romeu e Julieta, com música popular brasileira, que o André nos orientou. Tinha o orientador de dança que nos dava aula de Capoeira e também a de teatro. Como um grupo evoluímos muito, tínhamos os orientadores das três linguagens voltados para o grupo. Fizemos apresentação na Olido, estavam os três orientadores lá, presentes, cantando as músicas com a gente, tocando com a gente. Como uma Vocacionada, como uma pessoa que se inscreve no Programa, penso que isso deveria acontecer em todos os equipamentos. Ter realmente todas essas Artes e que elas conversem. Fazíamos reuniões no Feitiço da Vila: “o que queremos?” “Mais horário no sábado?” “O teatro todo domingo?” “Como distribuir os horários entre as linguagens?” Fazíamos juntos as aulas. São propostas que a gente poderia pensar pro futuro do Vocacional. Porque nas Artes Integradas, que tem uma pessoa só para orientar tudo, quem perde é o grupo. Porque ela vai dar um olhar dela, baseado nas três artes juntas. Diferente do que poderia ser o olhar de um profissional que tem experiência em sua própria área, que pode dar uma visão mais detalhada. Trazer instrumentos etc.

IPOJUCAN: Mas isso não é o Vocacional. Ou seja, o Vocacional não é a decisão do artista orientador, ele pode sugerir. Mas a decisão tem que ser de vocês. O Vocacional são vocês, são os Vocacionados, esse é o Vocacional. A sua pergunta: “A gente não pode…?” Se vocês não quiserem, não pode. A decisão é de vocês.

Artista-orientador: O programa tinha, eu lembro, acho que em 2011, a artista orientadora de Dança. Eu conheci seu trabalho, ela conheceu o meu, mas não houve diálogo de Linguagem. Tinha o Vocacional em Rede, tinham reuniões, eu conheci o trabalho dela, acompanhei um ano, mas não fizemos um trabalho junto, porque o grupo não se interessou, eu também não me interessei, ela também não. Mas era bacana que eu conhecia o trabalho dela. Hoje em dia eu não conheço. Tem umas tentativas agora de reuniões, mas a gente não sabe o porquê. Colocar Teatro, Dança, Música lá, a gente se apresenta e acabou. Mas antes desde o começo tinha essa troca. Essa troca alimentada. Se sabia o que estava acontecendo no Feitiço, na Belmonte de Dança, de Teatro.

MARINA: Mas será que é uma coisa que o Teatro tinha e não tem mais. Ou será, por iniciativa ou por conjunturas X ou Y, no espaço onde você estava, acontecia isso. Porque eu tenho a impressão do Programa, que nasce com o Teatro, e vai criando esses apêndices, viram apêndices essas linguagens, elas não estão realmente integradas. Acho que é uma questão estrutural, repensar esse Programa. O Teatro nasce, depois a Dança, depois a Música, depois as Artes Visuais. Mas eles nascem na soma, não nascem na integração. Temos que repensar essa estrutura. Pois se pode estar super integrada num esforço homérico de todos Artistas Orientadores ali, ou pode se estar totalmente na sua. Não é uma questão do Programa. E tem ainda a relação com o próprio equipamento.

TALITA: Às vezes não se tem clareza do que é o Programa. A pessoa não tem informação.

IPOJUCAN: Fica difícil de saber se é local, é do equipamento, é da macro-estrutura, da Secretaria, da Prefeitura. Pro Artista Orientador entrar às vezes por esse lugar, pode ser um labirinto. Uma coisa eu sei, não existe Vocacional, sem Vocacionados. O Vocacionado é a parte mais importante, pode não parecer às vezes. O Vocacional é isso, a única coisa que me garante nesse deserto, a única luz, é essa.

BRUNO: A única coisa que eu acho que está faltando realmente é a comunicação. Porque o Vocacionado entra, como ela falou, perdido. Então, se não tiver ninguém lá em cima, chamando, falando quais são as diretrizes fica difícil. Às vezes não sabemos que o Vocacional é feito por nós, se demora pra perceber isso. Tanto que quem começa, em qualquer linguagem, não vai tratar o artista orientador como uma pessoa que está lá para, digamos, orientar, modelar alguma coisa que se quer criar… O Vocacionado entra vendo a imagem do Artista Orientador como professor. Ela virá aqui e vai me falar: “faz isso, isso e aquilo.” Até eles sentirem e verem que não é isso, que a pessoa está lá não para te puxar, mas para andar ao seu lado, ajudar nessa caminhada, demora um tempo. Então, essa comunicação dos artistas orientadores de todas as vertentes, e pensar: “vamos criar uma forma de conseguir mostrar pra todo mundo que não é só aquilo, não é uma simples aula, é uma interação.”

Artista-vocacionado: O Vocacional não é uma aula, é um curso.

EVERTON: Eu não diria nem que é um curso, o Vocacional é um espaço que eles dão, para você desenvolver sua vocação, sua voz. Vocacional vem de Vocare que vem de Voz. Que vem de iniciativa, de uma vontade sua. E às vezes, não se sabe muito bem o que se quer fazer. Aí que vem a imagem do Artista Orientador pra ajudar. Então, se não há esse consenso lá em cima, de ver uma forma de mostrar para nós Vocacionados, que nós temos esse poder. Fica difícil a comunicação. Porque cada um vai dar sua aula, o de Música de Música, o Dança a de Dança, Teatro, Teatro. E enquanto o artista orientador não fala: “dia tal terá um encontro com o pessoal que faz Vocacional de outra linguagem, e nisso faremos uma brincadeira onde os dois grupos vão interferir…” Enquanto não houver esse convite, onde vemos que está tudo linkado mesmo, não tenho como a gente se doar.

IPOJUCAN: Como se diz, “como está em cima, assim é como se está embaixo”. A mesma coisa que acontece com o Vocacionado que demora um tempo para descobrir isso, assim é também com o Artista Orientador quando ele entra no Programa. A mesma coisa com que vira coordenador… Ou seja, não é um curso, não se está escrito em nenhum lugar como se deve ser Artista Orientador, nem como ser Coordenador. Então, criamos espaço para se pensar inclusive isso, a pedagogia, tudo a ser criado.

DANIELA: Talvez a gente tenha que pensar se esse espaço de criação diminuiu. Se ele está diminuindo, seja pela estrutura, seja pelo modo como estamos nos relacionando, tentar identificar onde está diminuindo esse espaço. Como criar ou re-significar isso agora nesse momento? Esse espaço de criação entre linguagens. Talvez seja algo para se repensar. Depende da gente e de vocês, dessa criação. Não é uma aula nesse sentido, como vocês disseram, não tem uma cartilha de como funciona o Programa. Depende muito da criação, do que acontece nesses encontros, se eles têm continuidade. Cada processo é de um jeito.

IPOJUCAN: Sobre essa criação, eu penso que, as Linguagens, os Projetos, não é que um queira fazer uma coisa que os outros não querem. Parece que todos têm no horizonte a mesma coisa: isso que estamos falando aqui. As formas é que são diferentes. Talvez essas formas possam diminuir esse espaço que a Daniela acabou de falar. Não sei.

MARINA: Chegou o pessoal do outro evento (risos na sala). Vamos fazer uma roda aqui fora para finalizar? Vamos finalizar então?

LUIZ: Sim?

Risos

IMG_20140913_162231

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s